Labirinto do Dragão

Coleção de Histórias em Português

Sumário

Ruric Thar

, author: "Jennifer Clarke Wilkes", doc )

"Por que os guardas sempre parecem surpresos quando nós os esmagamos?", perguntou Ruric. "Acho que eles esperam um suborno", disse Thar.

Ruric afastou uma saraivada de flechas flamejantes com um punho do tamanho de um presunto. "Você disse que isso seria fácil."

"Não, você disse. Você sempre diz que eles são fáceis." Thar grunhiu com o esforço enquanto tombava uma quadriga que investia contra eles.

"Bem, esses caras não devem ter ouvido, porque estão lutando com muita garra."

"Sério? Eu não percebi. Então, você tem um plano?"

"Por que eu? Você sempre foi o favorito da mamãe, com as histórias e murmúrios dela e tudo mais. Os Antigos não tinham resposta para tudo?"

"Você deixa a mamãe fora disso. De qualquer forma, o papai não te ensinou nenhum truque de luta? Ou o Clã da Crosta dele não é tão durão assim, afinal?"

Ruric Thar, o Indomado | Arte de Tyler Jacobson
Ruric Thar, o Indomado | Arte de Tyler Jacobson

Um conjunto de dardos ricocheteou no peito do enorme ogro, um deles passando raspando pela cabeça maior.

"Oi! Essa passou perto demais. Precisamos abrir caminho na base da pancada!", gritou Ruric.

"Ah, claro, essa é a sua resposta para tudo. Precisamos de uma estratégia."

"Uuuuh, que palavra difícil. A mamãe te ensinou essa?"

Uma onda de infantaria blindada chocou-se contra a forma imponente de Ruric Thar com um estrondo. Por alguns momentos, o ar encheu-se de marteladas, gritos e respirações ofegantes. Então, um momento estranhamente silencioso.

"Tem muitos desses caras dos Boros para passarmos."

"Nós damos conta deles. O que você é, um covarde?"

"Alguém disse covarde?"

"Foi você que disse isso?"

"Por que eu diria isso?"

"Eu disse isso. Aqui embaixo."

Ruric e Thar olharam cada um para um lado. Então uma cabeça girou para procurar atrás enquanto a outra se abaixou.

"Ei! Tem um carinha atrás de nós. O que você está fazendo aí embaixo, carinha?", perguntou Thar.

"Esgueirando-se para cima de nós, hein? Vamos te esmagar até virar geleia!", gritou Ruric.

"Vocês têm geleia também? Talvez possamos fazer um trato", guinchou o goblin maltrapilho. Algumas placas de metal amassado e queimado agarravam-se à sua forma de aparência castigada.

"Ha!", Ruric gargalhou, repelindo outro ataque da infantaria com um enorme machado de mão. "Um tampinha como você? O que você vai fazer que nós não possamos fazer melhor?"

"Eu posso ser pequeno, mas tenho ideias grandes. Grandes." O nanico estufou o peito franzino e cuspiu um bocado de sangue. "De qualquer forma, não parece que vocês estão ganhando."

Thar fez uma careta. "E você está? Que tipo de planos de guerra vocês, ratos de paralelepípedo, bolam? Dominar o inimigo com o chulé?"

"Engraçadinho", bufou o goblin. "Seja como for, eu sei das coisas. Mais que vocês, aposto."

"É?", resmungou Ruric. "Então por que você está preso aqui em vez de estar ganhando tudo?"

"Cale a boca", disse Thar, socando um par de mastins de guerra. Ganidos ecoaram pela praça. "Talvez esse sujeito possa ajudar."

"É isso mesmo! Vocês deveriam ter mais respeito. Nós, Izzet, descobrimos o Labirinto, afinal de contas." O goblin cruzou os braços, parecendo o mais formidável que um fedorento verde e franzino de um metro e vinte pode parecer.

"Então você é o corredor do labirinto deles?"

O goblin murchou. "Eles escolheram outra pessoa." Ele olhou para cima desafiadoramente. "Mas eu consigo encontrar o caminho tão bem quanto qualquer um. Eu só fiquei meio que... preso aqui."

"E você precisa que a gente te tire daqui. O que nós ganhamos com isso?" Ruric franziu a testa, então afastou um grupo voador de skyjeks gritando, pontuando uma parede próxima com asteriscos sangrentos. "Ai! Um deles me pegou."

"Squelch é o nome. Eu estava testando isto — minha última invenção", o goblin apontou o polegar para uma das placas de metal maiores, que tilintou nos paralelepípedos e balançou levemente. "E funcionou! Eu só tive um probleminha com o pouso."

Arte de Svetlin Velinov
Arte de Svetlin Velinov

"E como isso vai nos ajudar?" Thar entortou o lábio. A expressão era difícil de discernir em seu rosto nodoso e cicatrizado.

"Ih, irmão! O que é aquela coisa que eles estão trazendo agora?" Ruric virou sua cabeça enorme em direção às linhas Boros.

"Oh, pedregulhos. É uma balista."

"Uma balis-o-quê?"

"Uma máquina de guerra. Lança lanças grandes", disse Thar. "Grandes como árvores."

"Eu não tenho medo de árvores."

"Bem, essas árvores mordem. Temos que parar aquela coisa antes que ela nos pare."

"Eu tenho a solução exata para isso, rapazes", disse o goblin. "Eu ajudo vocês, vocês me ajudam. O que me dizem? Temos um acordo?"

Ruric e Thar riram, alto e com amargura. "Ah, claro, seremos imensamente gratos quando..." Thar começou, "...você salvar nossa pele", terminou Ruric.

"Vocês têm que me fazer um favor em troca. Qualquer coisa que eu pedir. Quando eu quiser. E um frango. Não, dois. Ok?"

"Tá, tá, vai em frente e faz essa sua poderosa magia de goblin."

O pequeno Izzet cuspiu em uma palma e esfregou as mãos magras. "Apenas observem."

Squelch correu entre as pernas de tronco de árvore do ogro e por baixo dos escudos do batalhão de soldados que se aproximava, concentrados em Ruric Thar. Escalando uma parede em ruínas, Squelch lançou-se nas costas de uma fera de guerra blindada. Então o goblin puxou um cravo de metal de um bolso invisível e o cravou no topo da cabeça da criatura antes de saltar para longe.

Arte de Kev Walker
Arte de Kev Walker

Faíscas voaram. A fera de guerra cambaleou, trombetando, então voltou-se contra seu parceiro de canga. Mais urros de angústia seguiram-se, junto com o estalar de madeira e o guincho de aros de ferro no aço. Soldados humanos dispersaram-se enquanto os gigantes enlouquecidos libertavam-se de seus arreios, passavam pisoteando e desapareciam pelos becos.

A enorme máquina de guerra começou a tombar com uma estranha graça, caindo lentamente de lado. Várias rodas giravam devagar, rangendo. Momentos se passaram. Então toda a engenhoca explodiu em um estrondo de chamas.

Arte de Ryan Barger
Arte de Ryan Barger

"Como isso aconteceu?", exclamou Thar, apertando os olhos.

"Quem se importa?", gritou Ruric. "Vamos embora!"

O vulto imenso do ogro avançou pesadamente em direção ao portão da guilda do outro lado da praça, pisoteando os destroços em chamas e os corpos blindados espalhados pelas pedras do calçamento.

Arte de Karl Kopinski
Arte de Karl Kopinski

"Afinal, para onde foi aquele carinha?" Ruric girou o olhar até que suas presas bateram na nuca de Thar.

"Bem aqui!", veio uma voz de trás. O goblin saltou para os ombros do ogro, entre as duas cabeças, e agarrou a presa de Ruric para se apoiar. "Eu disse que podia dar um jeito."

"Ei! Larga!", berrou Ruric, sacudindo-se violentamente.

O goblin deu um guincho, mas segurou firme. "Nós tivemos um a-a-acordo. Você prometeu."

"É, nós tivemos", disse Thar. "E você cumpriu sua parte. Agora podemos conferir este portão. Você também, se quiser."

"Com certeza! Mas isso não conta como o meu favor. Esse vocês ganharam de graça. Vocês ainda me devem um."

"Tá, tá", murmuraram ambas as cabeças.

"Onde vamos encontrar um frango por aqui?", resmungou Ruric.


"Quantos já foram agora?"

"Vejamos." Ruric contou nos dedos gordos. "Três... mais, hã, dois?... e mais um." Ele ergueu seu machado de mão.

"Então, oito?"

"Algo assim."

"Seis", veio uma voz aguda.

"Temos que acertar o certo logo."

"Então, o que vamos fazer?"

"A mesma coisa que sempre fazemos."

"Esmagar! E depois pegar os tesouros." Ruric fez um movimento de pancada.

"Isso é tão divertido, pessoal!", Squelch exclamou de seu novíssimo cesto de montaria, pendurado nas costas do ogro. "Nós vamos ganhar de todos os outros corredores com certeza."

"Quanto tempo vamos ter que carregar essa coisa com a gente?", queixou-se Ruric.

"Até ganharmos, é claro", retrucou Thar.

"Ei, pessoal, eu estava pensando — aquele machado de vocês poderia mesmo passar por umas melhorias. Eu tenho umas ideias. Ação de corte automático. Talvez umas cabeças diferentes."

"Não presta atenção. Talvez ele vá embora sozinho." Ruric Thar continuou a marchar.

"Ei, pessoal? Sabem, nós formamos uma equipe incrível.

"Pessoal?"

Teysa Karlov

, author: "Adam Lee", doc )

Eles governaram por tempo demais.

Teysa sentou-se em sua cadeira favorita, feita de ébano de Utvara, e deixou que o pensamento blasfemo habitasse sua mente por um tempo. Ela saboreou o sentimento que ele gerou dentro dela — uma mistura emocionante de sacrilégio e liberdade.

Arte de Karla Ortiz
Arte de Karla Ortiz

Certamente, havia perigo à frente. O Obzedat lhe dera o título de enviada grã, mas Teysa sabia que era para poderem vigiá-la mais de perto — testando constantemente sua lealdade e mantendo-a ocupada com infindáveis "assuntos oficiais". Teysa não era estranha ao jogo e sabia que só poderia ganhar certa influência no lado dos vivos antes de sentir os fios fantasmagóricos do Obzedat puxando-a para o domínio deles. E Teysa vinha aumentando seu poder de forma constante. Ela sentia os fios deles puxando há bastante tempo.

Ela já estava farta desses velhos mortos.

O Manifesto Geracional para o Futuro dos Orzhov estava sobre sua mesa. O tomo antigo não acumulara um grão de poeira desde seus dias como uma jovem advokista. Teysa o lera de capa a capa várias vezes, mas esta última vez ela o fez sob um contexto diferente. As palavras assumiram um significado totalmente novo. Os olhos de Teysa se abriram; ela não era mais aquela jovem advokista ambiciosa que entrara em um mundo implacável de poder e mentiras. Ultimamente, Teysa começara a ver a si mesma como a representante de algo novo dentro dos Orzhov, que imbuíra sua mente com profunda convicção e ideias. Ela queria estripar a guilda Orzhov e moldá-la em um novo tipo de poder que Ravnica nunca vira.

Ela pegou o livro pesado e o abriu na citação mais recente que ecoava em sua cabeça.

Palavras simples, mas audaciosas, que eventualmente levaram "Anônimo" a ser caçado e morto. Ninguém fora da elite Orzhov conhecia a história completa, mas aqueles dentro das famílias Orzhov sabiam que Anônimo era uma aristocrata chamada Tihana Jarik. Jarik era conhecida na elite Orzhov por falar contra o Obzedat. A princípio, foi considerado uma excentricidade do sangue Orzhov de Jarik, e o nome de sua família a manteve segura até que ela começou a publicar ensaios criticando o conselho fantasma. Aqueles ensaios e sua recusa em parar levaram à sua prisão, julgamento e desintegração pública no Fórum de Orzhova.

Teysa gastara uma pequena fortuna em moedas e favores com um contato Dimir de confiança para obter secretamente os raros e incendiários escritos de Jarik. Eles estavam na coleção de Teysa, mas escondidos longe, sob chave e vários selos mágicos de alto poder. Possuir as palavras de Jarik era ser culpada pelos mesmos crimes pelos quais Jarik fora executada. Mas Teysa parara de se importar com o que o Obzedat poderia fazer com ela e começara a focar sua mente formidável no que ela poderia fazer com eles.


O labirinto.

Alguns dias antes, o Obzedat usara um Pacto de Morte para entregar a mensagem. Um escriba aterrorizado soltara a mensagem para Teysa dentro dos limites de um círculo da verdade. Teysa ouviu com a intensidade de um gato vigiando a toca de um rato. O labirinto começara como um interesse passageiro para os Orzhov, outra estranha obsessão Izzet a ser monitorada, mas não levada muito a sério. Teysa sentia essa nova informação mudando o jogo. O labirinto tornara-se vastamente mais importante e isso era algo para o qual o Obzedat não tinha plano. E ela sabia disso.

Fim do Labirinto | Arte de Cliff Childs
Fim do Labirinto | Arte de Cliff Childs

A maior fraqueza do Obzedat era ser composto por espíritos jogando um jogo corpóreo — eles precisavam de alguém no outro lado do véu em quem pudessem confiar para assuntos de grande importância. Até então, Teysa fora a resposta relutante deles. Ela podia sentir a frustração deles ao terem que divulgar sua urgência para Teysa com essa tarefa de percorrer o labirinto e descobrir seu segredo antigo. Seria poder desenfreado? Seria uma vasta fortuna? Concederia o domínio sobre Ravnica? Teysa sabia que o Obzedat estava verdadeiramente preocupado com o que poderia acontecer; o labirinto estava fora de seu controle e o tempo estava correndo. Teysa era a melhor aposta deles para resolver o labirinto. Agora ela tinha a vantagem — tinha algo que o conselho queria.

Enquanto olhava de sua sacada, não conseguiu conter o sorriso pelo puro deleite de tudo aquilo.

"Slubnik", chamou Teysa.

Seu trul aproximou-se ofegante e curvou-se diante de Teysa.

"Envie um mensageiro e traga o Mestre Tajic dos Boros ao meu escritório."


Tajic sentava-se no escritório de Teysa. O som da bengala de Teysa no chão de ladrilhos anunciou sua chegada. Quando ela entrou, o cavaleiro Boros levantou-se e sorriu; seus dentes brancos pareciam de algum modo selvagens contra sua pele morena e cavanhaque preto. Ele ofereceu o braço e ajudou Teysa a sentar-se em sua cadeira. O braço dele parecia aço retorcido.

Teysa percebia que os olhos dele captavam cada detalhe do ambiente. Ela sentia o intelecto de Tajic, mas também sentia como ele irradiava perigo. Embora Teysa fosse tudo menos uma guerreira, ela supunha que Tajic poderia despedaçar os guardas que estavam à sua porta e todos os outros dentro de sua mansão, se quisesse.

Teysa fez sinal para Tajic sentar-se. "Vou direto ao ponto. Sei que você é um homem de palavra, Tajic, e uma integridade inquestionável é algo que valorizo acima de todas as coisas — moedas, terras ou até mesmo poder. Ambos sabemos que integridade é poder e aquilo que não tem integridade não tem poder."

Os olhos de Tajic brilharam. Ele gostava dessa aristocrata Orzhov; ela era uma lutadora e uma visionária. "Você sempre foi uma amiga para os Boros, Teysa Karlov, mesmo quando nossos mestres de guilda não concordavam." Seu sotaque era carregado e ele falava com uma segurança que, sem dúvida, irritara seu instrutor de dicção na Academia Boros. "Seus esforços em curar o Kuga Mot, restaurar a Utvara, derrotar Zomaj Hauc, criar um novo Pacto das Guildas — todas essas ações falam do seu caráter. Sei que Ravnica não é apenas uma mercadoria para você."

Arte de James Ryman
Arte de James Ryman

"Fico feliz que você me veja sem o cinismo habitual." Teysa bebericou seu chá. "A maioria não me concede a simples capacidade do que é ser humana, muito menos considera que eu realmente me importe com o bem-estar de nossa cidade sem pensar em lucro." Teysa olhou por cima da borda de sua xícara.

Tajic inclinou-se para frente em sua cadeira. "Eu sabia que você apreciava a lei e o que ela significa para Ravnica. Foi por isso que aceitei seu convite para conversar hoje." Ele recostou-se. "Tenho que ser honesto com você, Teysa Karlov, sempre admirei sua coragem de longe, mas agora que estou em sua presença, consigo sentir o que faz de você uma grande líder." Tajic disse as palavras sem nenhum vestígio de subterfúgio ou astúcia; Teysa sentiu um leve rubor subir às suas bochechas.

"O senhor me honra, senhor." Ela deu um gole constrangido no chá.

"Eu sei o que inspira as pessoas", disse Tajic com naturalidade.

Houve uma longa pausa. Os dois sentaram-se em silêncio, bebericando chá, Tajic com uma expressão de esfinge que não traía nenhuma emoção e Teysa sentindo que aquele era o comandante Boros mais estranho que já encontrara. Ele era perfeito para a tarefa. Esse era o homem que a ajudaria a alcançar seu objetivo.

Teysa respirou fundo, o tipo de respiração que se toma antes de abrir uma porta da qual não há retorno.

"Gostaria de formar uma aliança com você. Um tipo especial de aliança que exige compromisso e dedicação absolutos."

Tajic sorriu como se estivesse esperando o pedido de Teysa o tempo todo. "Você quer que eu a ajude a percorrer o labirinto e roubar o prêmio das garras insaciáveis de Niv-Mizzet? Será um prazer."

"Não", disse Teysa. "Quero que você me ajude a destruir o Obzedat."

A História Mirabolante de Barrin

, author: "Adam Lee", doc )

Lá estava ele de novo.

Barrin Grevik se perguntava por que aquele homem estranho em um manto com capuz tinha tomado tanto interesse na pedra angular com a gravação bizarra que marcava o limite de sua loja e o beco que cruzava a Rua do Estanho.

Barrin lembrava-se de ver os símbolos estranhos esculpidos naquela pedra quando era criança, quando acompanhava seu avô ao mercado para vender seus tapetes, trabalhos em latão e produtos artesanais. Os Greviks eram gente do mercado há gerações e ocupavam o mesmo ponto na Rua do Estanho desde que a família conseguia se lembrar.

A pedra angular sempre estivera lá, mas era frequentemente coberta por rolos de carpete ou pilhas de caixas contendo bugigangas e miudezas para venda. Ocasionalmente, algum transeunte estranho comentava sobre ela ou um forasteiro se perguntava sobre seu significado ou sentido, mas ninguém realmente sabia. A mãe de Barrin dizia que era uma comemoração da abertura da Rua do Estanho — o que tornaria a pedra terrivelmente velha — e essa explicação servia muito bem para Barrin. Ele não estava interessado na história antiga de Ravnica ou nos ritos mágicos e esquisitos das guildas; ele só queria ter um lucro limpo, sentir-se superior aos outros, comer bem e ignorar a situação geral dos menos afortunados.

É por isso que havia algo naquele estranho que irritava sua pele bem cuidada e lhe dava uma sensação perturbadora — aquele homem encapuzado cheirava a um certo tipo de problema que ameaçava a felicidade estruturada de sua loja.

"Posso ajudá-lo?" Barrin sentiu uma leve pontada de irritação em sua voz e decidiu que gostava disso. Afinal de contas, ele estava irritado.

Assim que o homem olhou para Barrin, ele se sentiu menos irritado e mais inquieto.

Pela experiência de Barrin, a maioria das pessoas no mercado raramente fazia contato visual e falava por trás de um muro de decoro fingido — como o próprio Barrin fazia — mas este estranho de manto olhou diretamente para ele com olhos que o prendiam como um torno. Barrin não tinha vocabulário para descrever o que sentia, então o fluxo de emoções e pensamentos foi relegado a algo que ficava entre a confusão e o medo.

"Sim", disse o estranho. "Aquela pedra. Você sabe algo sobre as marcações nela?"

Barrin pretendia dizer ao jovem para ir dar uma volta bem longa num beco sem saída quando se viu falando tudo sobre a história da pedra, sem omitir um único detalhe das especulações da família sobre suas origens e possíveis significados. Barrin até contou ao homem sobre a teoria de seu tio-avô Estovar de que ela fora colocada ali pelos Azorius logo após a assinatura do primeiro Pacto das Guildas. É claro que o tio Estovar era louco como um magíster Izzet, mas isso não impediu Barrin de compartilhar aquela parte do folclore familiar. Ele sentiu-se compelido a não ocultar nada e, após um bom tempo, Barrin havia despejado toda a história conhecida da pedra ao estranho, que ouvia com calma intenção.

"Muito obrigado", disse o estranho, com um esboço de sorriso passando pelo rosto. Ele partiu.

Após um momento atemporal, a esposa de Barrin colocou o rosto na frente do dele e disse: "Ei! Estou falando com você! O que foi tudo aquilo?"

"De nada?", disse Barrin.


Barrin não era nenhum wojek Boros, mas depois daquele encontro estranho e um tanto enervante, ele queria saber mais sobre o jovem no manto azul e estava determinado a conseguir algumas respostas. Sua esposa, Nila, notou que Barrin estava com "aquele olhar" e sabia que algo estava atravessado na garganta dele. Barrin era um homem determinado. Toda a sua família era um lote determinado, mas Barrin era especialmente cabeça-dura. Sua esposa os chamava de "os dromades" quando se referia aos sogros, e incluía Barrin no meio deles também. Teimoso e ranzinza.

Dromade Puro-sangue | Arte de Carl Critchlow
Dromade Puro-sangue | Arte de Carl Critchlow

"Vou descobrir o que ele está tramando, bisbilhoteiro maldito. Não acredito que contei tudo sobre aquela pedra para ele. Eu nem tinha tomado um gole de bumbat o dia todo e estava tagarelando como o Velho Scrumpy na taverna." Barrin estava de ótimo humor. Sua ilusão de controle sobre todos os seus assuntos fora abalada e isso despertara o espírito de luta nele.

"O que deu em você? Ele não roubou nada." Sua esposa colocou as mãos nos ombros dele enquanto ele se sentava à mesa da cozinha e preparava seu almoço para o dia na loja.

"Ele é um Dimir, Nila. Eu sinto isso." Barrin fatiou uma cebola com irritação extra. "Vou segui-lo até seu ninho de ratos e descobrir qual é a dele." Uma onda de condenação farisaica o inundou para ajudar a justificar sua caça às bruxas. Se alguém era "um Dimir", Barrin não via problema algum em violar o direito básico à privacidade dessa pessoa.

"Ele não é um Dimir", disse Nila, buscando uma cesta para o almoço de Barrin. "Aquela guilda está agindo dentro da lei agora. Todos esses boatos deixaram você e o resto da Rua do Estanho em polvorosa. 'Culpa dos Dimir!' É o que todos dizem sobre cada coisinha que dá errado por aqui."

"Veremos se ele está agindo 'dentro da lei', minha pombinha", resmungou Barrin, perdido em pensamentos de ladrões sombrios e degoladores. "Veremos."


Barrin seguiu a figura encapuzada à distância. Ele tinha um amigo wojek e aprendera uma coisa ou outra sobre seguir fugitivos pela Rua do Estanho ao longo de anos conversando sobre vadios, batedores de carteira e o declínio da decência social.

A figura encapuzada entrou em um beco escuro.

Típico de um malfeitor Dimir, pensou Barrin.

Ele tateou dentro de sua túnica e sentiu o cabo de um velho pendrek Boros, outro presente de seu amigo wojek. Ele ainda tinha algumas cargas de mana e podia atordoar um loxodonte — quanto mais um ladrão Dimir espreitando. Sentiu uma onda de adrenalina percorrer seu corpo. Finalmente, estava prestes a pegar um desses patifes e trazê-lo à justiça.

"Você não incomodará mais a Rua do Estanho", resmungou Barrin ao entrar no beco.

Levou um pouco de tempo para que os olhos de Barrin se acostumassem à escuridão do beco. Gatos magricelas mastigavam cabeças de peixe. Conforme Barrin avançava pelas pedras úmidas do calçamento, um goblin Rakdos saltou de trás de uma pilha de lixo e sibilou para ele com dentes lixados em pontas.

Barrin brandiu seu pendrek e o goblin saiu correndo para a escuridão, gargalhando obscenidades.

"Escória Rakdos", disse Barrin baixinho. Seu coração batia forte no peito.

O beco serpenteava e Barrin pensou em voltar quando ouviu um zumbido seguido de um flash de luz azul vindo de uma janela de porão. Ele desceu furtivamente as escadas escorregadias que levavam a uma porta de madeira robusta. Cuidadosamente, testou o trinco. Não estava trancado. Abriu-a lentamente para revelar o estranho encapuzado encarando uma imagem fantasmagórica do Décimo Distrito, estendida diante dele como uma maquete primorosa. Um feixe brilhante de energia vermelha traçava uma série de linhas angulares que passavam pela Rua do Estanho, subiam por várias passarelas e eventualmente chegavam ao topo da alta torre de...

"Os antigos arquivos legislativos Azorius", Barrin ouviu-se sussurrar.

"Exatamente", disse o homem no manto, sem se virar para encarar Barrin.

Arte de Jaime Jones
Arte de Jaime Jones

Barrin esquecera completamente seu pendrek e sua bravata. Só conseguia olhar para a imagem crepitante do Décimo Distrito e para este mago que a ponderava. A outra extremidade da linha vermelha brilhante originava-se em...

"Minha loja." Barrin apontou para o mapa brilhante.

O homem encapuzado virou a cabeça e olhou para ele. "A pedra angular ao lado da sua loja é, na verdade, um ponto de referência Azorius, uma série antiga de pistas deixadas pelos magos de guilda Azorius. São pontos ao longo do Labirinto Implícito, e eu tenho que encontrar todos eles."

"Labirinto Implícito?" disse Barrin. "O que é tudo isso... este mapa, pontos de referência? Por que não ouvi falar disso?" Barrin não gostava de não estar "por dentro" das coisas.

"É complicado, Barrin." O homem disse seu nome como se fossem velhos amigos. "Eu mesmo não tenho certeza do que o labirinto é. Gostaria de ter tido mais tempo para estudar e reunir conhecimento sobre sua função e poder exatos, mas os Dimir estão me forçando a agir rápido."

"Ah! Dimir! Eu sabia!" Barrin sacou seu pendrek. Finalmente, algo em que ele podia se agarrar.

"Sim, mas eles são apenas o catalisador." O mago parecia imperturbável diante de Barrin e sua arma wojek. "As outras guildas vão destruir umas às outras a menos que eu consiga percorrer o labirinto na sequência correta." O mago de vestes azuis levantou-se e uniu as palmas das mãos. Seu mapa brilhante apagou-se como um vaga-lume.

"Você não é um Dimir?" disse Barrin.

"Não." O mago sorriu para ele enquanto recolhia alguns papéis espalhados. "Sinto muito."

"Quem é você, então?" Barrin apontou seu pendrek, mas algum instinto lhe disse que era como apontar um graveto para um comando das chamas Boros.

Arte de James Ryman
Arte de James Ryman

"Meu nome é Jace Beleren", disse o mago de sob o capuz de seu manto. Então, de dentro da sombra do capuz, os olhos do mago brilharam em um azul sinistro, iluminando seu sorriso. "E você não vai se lembrar de um único momento disto, meu tolo amigo."


Barrin acordou no dia seguinte.

"Você deve ter tido uma boa conversa com o Velho Scrumpy", disse Nila. "Você chegou como um andante Golgari e foi direto para a cama."

"Eu estive com o Scrump?" Barrin não conseguia se lembrar de nada. "Acho que devo ter estado. Mas uma coisa é certa, nunca mais bebo bumbat."

Expectativas

, author: "Nik Davidson", doc )

Oana apertava um punhado de pergaminhos contra o peito enquanto corria pelos corredores ecoantes de Nova Prahv. Estava atrasada. Isso era quase um fato consumado. Seus dias mais ocupados eram agendados até o último minuto, mas nunca levavam em conta o tempo para ir de um compromisso a outro. Quando o sol atingia o horizonte, ela já havia começado seu declínio diário, ficando cada vez mais para trás na marcha implacável das horas.

Portão da Guilda Azorius | Arte de Drew Baker
Portão da Guilda Azorius | Arte de Drew Baker

Esta é a sua recompensa, pensou ela, uma mistura complicada e inútil de emoções acompanhando as palavras enquanto passavam por sua mente. Oana fora "promovida" para fora das equipes de pesquisa da Coluna de Sova por seus tratados sobre leis de herança, mas seu novo cargo provara não ser nenhum prêmio. Ela era agora uma defensora, encarregada de ajudar os acusados através das passagens impenetráveis da lei Azorius, e garantir que seus direitos fossem respeitados e mantidos. Ela irrompeu na sala de tribunal finalmente, com suas desculpas bem ensaiadas prontas para serem oferecidas mais uma vez.

Do alto de seu estrado, o Árbitro Johvann III discursava monotonamente, alheio à chegada tardia de Oana, ou aparentemente, à sua ausência prévia. Ela sentou-se ao lado de seu cliente, um nervoso mercador de vegetais que fora preso duas semanas antes. Oana espalhou alguns pergaminhos sobre a mesa e tentou descobrir o quanto havia perdido. Estava apenas alguns minutos atrasada e, felizmente, o preâmbulo oficial de um julgamento podia durar bastante tempo.

O monótono incessante do Árbitro Johvann transmitia seu absoluto desinteresse.

"…previamente estabelecido por precedente, o papel daqueles que se envolvem em esforços mercantis é ampliado por lei para promover trocas nas quais tanto o comprador quanto o vendedor, em todos os momentos, mantenham uma equidade de informação e entendimento. Embora o conhecimento teórico ou a ignorância de uma parte não possa ser verificado (salvo por meios mágicos que são regidos por estatutos relativos à adivinhação mágica da presença ou ausência de conhecimento), é proibido a qualquer parte em uma transação envolver-se em esforços verbais ou materiais para deturpar a natureza verdadeira e factual e o valor dos bens, serviços ou promessa de bens ou serviços futuros em questão." Johvann fez uma pausa para encarar o mercador de vegetais, seu rosto caído desprovido de emoção.

"Prendedor Petri, por favor, relate o depoimento que você codificou a respeito do incidente que levou à detenção do acusado."

Conselho do Absoluto | Arte de Zoltan Boros
Conselho do Absoluto | Arte de Zoltan Boros

Um jovem soldado Lyev levantou-se. "Há dezessete dias, na extremidade oeste do mercado da Alameda Rowan, o acusado fez o seguinte anúncio público em sua banca de vegetais, e cito: 'Vegetais frescos à venda'."

O soldado sentou-se novamente. Johvann começou a esfregar o queixo em consideração.

Oana, totalmente confusa, levantou-se para objetar. "Árbitro, os registros do meu cliente mostram conclusivamente que todos os seus produtos atingiram o limiar de 'frescos', no sentido de terem sido colhidos há não mais de nove dias, e em todos os casos, meu cliente estava disposto a vender ou trocar cada um dos itens em exibição. Não vejo nada na conduta ou declaração de meu cliente que possa ser considerado remotamente criminoso."

Johvann voltou seu olhar cansado e vazio para Oana e acenou com a mão. Runas brilhantes começaram a rolar pelo ar à frente de seu estrado. "Conforme a recente proclamação referente aos Usos Legais, Designações e Trocas de Materiais Terapêuticos, uma série de espécies de plantas teve sua designação mercantil oficial alterada de 'vegetal' para 'suprimento medicinal', incluindo vários dos comestíveis que seu cliente oferecia à venda. Seu cliente não possui as licenças adequadas para vender suprimentos medicinais. Oferecer esses medicamentos à venda sob o rótulo de 'vegetal' é tanto enganoso quanto potencialmente prejudicial à saúde pública."

"Mas eu vendo esses mesmos vegetais há anos!" O mercador olhou para Oana, com o rosto suplicante e cheio de medo.

"Incorreto. Nos últimos cinquenta e sete dias, você tem vendido suprimentos medicinais. Segue minha sentença sumária: Você é considerado culpado de vender suprimentos medicinais sem licença. Seu estoque será apreendido e destruído, e todas as suas licenças de mercado são sumariamente revogadas. Você será impedido de solicitar novas licenças de mercado por um período de um ano, e nenhuma licença para a venda de suprimentos médicos será concedida por um período de não menos que três anos. Após esse tempo, você poderá solicitar que a proibição de licenças seja revogada e, caso a revogação seja concedida, poderá então solicitar uma nova licença provisória de venda de vegetais."

O martelo rúnico de Johvann bateu e o cliente de Oana foi levado.

Oana bateu com o punho no balcão, chacoalhando seu copo quase vazio. O vedalken atrás do balcão ergueu uma sobrancelha polida.

"E eu simplesmente fiquei lá sentada, como uma imbecil! Se eu tivesse tido mais tempo para me preparar, estaria pronta para argumentar contra a mudança de classificação!" Oana estava desabafando com ninguém em particular. O barman fingia atenção e os outros clientes mantinham uma distância segura. "Há precedentes amplos para permitir uma mudança de licença retroativa, ou mesmo uma isenção de saúde pública! Mas eu não estava pronta. Não é o sistema que está quebrado. O sistema funciona. Eu estou quebrada. Não consigo acompanhar, e um homem decente perdeu seu negócio por minha causa."

Enquanto Oana terminava sua bebida, uma idêntica deslizou pelo balcão, tilintando contra seu copo vazio. Ela olhou para o lado e viu um jovem vestindo roupas levemente extravagantes. Seus olhos e seu sorriso eram aguçados e brilhantes.

"Você fez o seu melhor, não fez? Certamente isso conta para algo." Havia algo na voz do homem que ao mesmo tempo a acalmava e a preocupava. Seus ombros ficaram tensos, mas ela se virou para encará-lo.

"Você fez o que pôde com o tempo e as ferramentas à sua disposição. É tudo o que podemos fazer." O jovem estendeu uma mão com luva preta. "Meu nome é Tarem. Tenho uma proposta para você."

Oana hesitou. Algo nela queria fugir daquele lugar o mais rápido que pudesse, mas ela não conseguia pensar em nenhuma razão racional para não ouvir o homem. Ela apertou a mão dele. "Oana."

Tarem assentiu. "Oana Vitellius, neta do famoso árbitro, Otho Vitellius II. Dizem que você compartilha da paixão e habilidade dele."

Oana franziu a testa. "A paixão dele, talvez. Mas não a habilidade. Ele nunca teria arruinado um caso tão fácil." Novamente, seus instintos dispararam. Ele armara uma armadilha verbal, e ela caíra direto nela.

"Não a habilidade dele? Bem, tenho boas notícias para você. Um associado meu é capaz de realizar um tipo de magia muito especializado. Pode transferir as memórias e o treinamento dos mortos para os vivos. Quanto mais o doador tem em comum com o receptor, mais bem-sucedido o procedimento tende a ser. No caso de um avô e uma neta com uma profissão compartilhada, imagino que teria um efeito notável."

Alteração de Traços | Arte de Clint Cearley
Alteração de Traços | Arte de Clint Cearley

Oana tornou-se subitamente muito consciente de seus próprios batimentos cardíacos. Ela sabia que o que estava ouvindo era errado, mas ela queria aquilo. Fechou os olhos por um longo momento.

"Dimir." Todas as peças se encaixaram e ela cuspiu a palavra com o máximo de nojo que pôde reunir. "Como ousa sugerir a profanação de um homem tão grande? Ele dedicou a vida a garantir que gente do seu tipo recebesse a punição que merece! Você vem aqui, me oferecendo este presente envenenado para me derrubar? Deixe-me ser bem clara. Continuarei o trabalho dele, e eu conquistarei o direito de destruir você. Se eu voltar a vê-lo, você passará o resto dos seus dias acorrentado!"

O sorriso de Tarem nunca vacilou. "Mil desculpas, Defensora. Desejo-lhe toda a boa sorte que você merece." O agente Dimir curvou-se educadamente e retirou-se sem pressa.

No fundo do estômago, ela sabia que algo estava errado. Mas ela afastou o pensamento, pagou sua conta e foi para casa.

Naquela noite, Oana dormiu melhor do que em anos. No dia seguinte, impulsionada por seu novo ímpeto, ela obteve quatro absolvições e conseguiu reduzir a sentença de um quinto cliente para liberdade condicional e uma multa trivial.

Cinco julgamentos, três reuniões com clientes e duas audiências preliminares ao todo. E ela não se atrasou para um único compromisso.

A Árbitra Oana Vitellius I ajeitou seus cabelos grisalhos sob seu capuz tradicional de juíza e sorriu para seu reflexo. Estava orgulhosa do que via. Seus aposentos eram decorados com as lembranças de trinta anos de serviço aos Azorius — prêmios da guilda por diligência como defensora, os documentos detalhando sua confirmação como árbitra e vários outros prêmios e elogios. Mas mais importantes para ela eram as cartas emolduradas e lembranças de ex-clientes, e de defensores que ela mentorara ao longo dos anos. Seus aposentos eram adjacentes ao seu tribunal, e ela podia ouvir as pessoas ocupando seus lugares. Era de conhecimento comum que ela sempre começava seus julgamentos quinze minutos após o horário agendado. Ela sentia-se um pouco culpada e rebelde toda vez, mas os olhares agradecidos dos defensores apressados que mal conseguiam passar pelas portas a tempo valiam a pena.

Ela desfrutou de algumas mordidas no café da manhã padrão de um Árbitro — um prato de frutas frescas. As frutas eram fornecidas a Nova Prahv (ignorando o mercado) a um preço justo por um ex-cliente dela, e tinham um gosto doce todos os dias.

Após seu último caso no primeiro dia de cada mês, Oana fazia uma peregrinação à cripta de seu avô. Ela contava a ele tudo sobre as questões que resolvera desde sua última visita e sobre os últimos decretos do senado. Oana nunca se sentia totalmente à vontade ali. Falava rápido demais, tropeçava em suas histórias — sob o olhar severo da estátua de Otho Vitellius II, sentia-se como uma criança indigna, mesmo agora, aproximando-se dos sessenta anos e com conquistas que quase igualavam as dele. Nesta noite, passou a maior parte da visita sentada em silêncio. Quando partiu para casa, as ruas estavam quase vazias.

Oana abriu a porta de sua casa e respirou o ar familiar. Sua casa era modesta, considerando sua posição. Ela nunca fora motivada por riqueza ou conforto. Cada móvel fora feito para durar, e cada objeto estava em seu devido lugar. Era um lugar de quietude e calma, mas nesta noite, algo estava errado. Havia mais alguém ali.

Com um gesto rápido, ela iluminou sua sala de estar. Ali, em sua cadeira favorita, sentava-se um homem cujo rosto ela não via há quarenta anos. Tarem. Ele não envelhecera um dia.

A raiva explodiu. "Você se lembra da minha promessa, Dimir? Porque eu certamente me lembro. Vou garantir que você seja entregue ao Éter por isso!"

O vampiro inclinou a cabeça em um pedido de desculpas fingido. "Eu me recordo da sua promessa, Árbitra, com grandes detalhes. E estou aqui para cobrar. Amanhã, você ouvirá um caso envolvendo um roubo da Liga Izzet. O acusado é um homem sem importância para você, e você o considerará inocente de todas as acusações. Isso marcará o fim da nossa transação."

Ladino Mestre das Chaves | Arte de Winona Nelson
Ladino Mestre das Chaves | Arte de Winona Nelson

Uma sensação fria e aguda percorreu a espinha de Oana. Algo estava muito errado. "Você fala bobagens. Pela autoridade do Senado Azorius, coloco você sob prisão por invasão domiciliar e por tentar coagir um árbitro!"

Tarem levantou-se, oferecendo seus pulsos humildemente a ela. "Claro, Árbitra. Mas você me honraria com a resposta a uma pergunta primeiro?" O sorriso dele estava mais afiado do que nunca. "Quando foi a última vez que você viu sua neta?"

A falta de lógica da pergunta fez Oana hesitar por um breve momento. Ela nunca se casara e não tinha filhos, muito menos netos. Não fazia sentido algum... e então uma imagem flutuou sem ser chamada em sua memória.

Ela estava olhando para uma menina, de não mais que sete anos. Os olhos eram familiares. Os olhos dela. Ela estava olhando para si mesma quando criança, o que significava...

Oana sentiu como se uma mão imensa tivesse agarrado seu crânio e a erguido para uma escuridão gélida.

Oana franziu a testa. "A paixão dele, talvez. Mas não a habilidade. Ele nunca teria arruinado um caso tão fácil." Novamente, seus instintos dispararam. Ele armara uma armadilha verbal, e ela caíra direto nela.

"Não a habilidade dele? Bem, tenho boas notícias para você. Um associado meu é capaz de realizar um tipo de magia muito especializado. Pode transferir as memórias e o treinamento dos mortos para os vivos. Quanto mais o doador tem em comum com o receptor, mais bem-sucedido o procedimento tende a ser. No caso de um avô e uma neta com uma profissão compartilhada, imagino que teria um efeito notável."

Oana tornou-se subitamente muito consciente de seus próprios batimentos cardíacos. Ela sabia que o que estava ouvindo era errado, mas ela queria aquilo. Fechou os olhos por um longo momento.

"Não existe um precedente legal preciso para algo assim. Mas a lei de herança é definida de forma extremamente ampla." A mente de Oana corria, e ela falava rapidamente, principalmente para si mesma. "Embora as magias relacionadas à modificação da memória sejam rigidamente reguladas, não haveria parte prejudicada em tal transação. Vitellius já está morto. Eu poderia argumentar que tais experiências são mercadorias transacionáveis não físicas, e caberiam por direito a mim como sua herdeira. Desagradável, certamente. Mas legal. Acredito que seria legal."

O sorriso de Tarem aumentou. "Suspeitei que você pudesse ser maleável. Se assim desejar, podemos realizar o feitiço esta noite. Esteja ciente de que precisaremos fazer pequenas modificações em sua recordação para garantir que as novas memórias sejam integradas suavemente. E então há a questão do pagamento."

Ladrão de Noções | Arte de Clint Cearley
Ladrão de Noções | Arte de Clint Cearley

O mundo girou, e a visão de sua sala de estar retornou.

Oana desabara no chão. Seu rosto estava molhado de lágrimas. "Um favor a ser nomeado mais tarde. E eu concordei."

"Sim. Sim, você concordou. Boa noite, Árbitra. Eu sei o caminho da saída."

Não levou muito tempo para chegar a uma decisão. Era o que seu avô teria feito, afinal. Oana passou a manhã seguinte escrevendo sua carta de demissão e sua declaração oficial de confissão. Ela protocolou a papelada para se declarar impedida em todos os seus próximos casos devido a conflitos de interesse, e então fez uma visita a um dos jovens defensores que ela mentorara por anos.

Levaria muito tempo para ela decidir no que poderia acreditar agora, e se estivera certa ou errada. Mas, de qualquer forma, ela ia precisar de um bom advogado.

A Perseguição, Parte 1

, author: "Ari Levitch", doc )

Uma camada de tensão permeava o laboratório, fazendo com que até o característico sibilar de vapor dos Izzet e o ranger de inúmeras peças móveis parecessem distantes. Para o envelhecido mago de guilda, Madarrak, nada existia naquele momento exceto a antecipação.

Antecipação e, é claro, o experimento. Sempre há um experimento. Este se agigantava no meio do laboratório: um enorme constructo mecânico que lembrava uma armadura que poderia ter sido moldada para um ogro. Mas no lugar da cabeça ou do elmo havia um conjunto de alavancas de controle, medidores de pressão e um assento, no qual se sentava um goblin nervoso. Ele observava o goblin passar por uma sequência de girar botões e acionar interruptores. Tudo o que Madarrak precisava era de um avanço tecnológico.

Um leve som de zumbido quebrou o silêncio. Começou como um sussurro baixo, mas ganhou intensidade até tornar-se um estrondo, mais sentido do que ouvido. O ar tornou-se visivelmente seco. "Lá vem!", disse Castan, uma assistente vedalken ao lado de Madarrak, que se esforçava para ser ouvida acima do ruído. Ela baixou seus óculos da testa para os olhos no exato momento em que um raio de eletricidade azul brilhante surgiu, suspenso entre duas bobinas condutoras que se projetavam dos ombros do constructo, perigosamente perto do piloto goblin. O fio de eletricidade dançava freneticamente e logo outros raios arqueavam-se pelo laboratório, forçando Madarrak e sua assistente a observar o espetáculo por trás de uma pesada mesa de trabalho de madeira.

O goblin acionou uma alavanca. O gigante deu um passo à frente, seu pesado passo ecoando como o som do sucesso nos ouvidos de Madarrak. Deu outro passo. E mais outro. Estava caminhando, e era estável, funcionando exatamente como ele projetara.

Então, algo não planejado ocorreu. O constructo ganhou velocidade e, em um instante, Madarrak o viu disparar pelo laboratório. Antes de ser arremessado de seu assento, o piloto goblin o direcionou para a porta. Irrompendo do laboratório com velocidade crescente, o constructo desceu pelo corredor de pedra do porão e desapareceu de vista. Madarrak estremecia a cada passo estrondoso, e Castan correu para a porta aberta a tempo de ver o constructo atravessar direto a parede de pedra na outra extremidade do corredor e tombar no chão, imóvel, no amontoado de escombros que criara. Raios errantes de energia elétrica estalavam esporadicamente por seu chassi.


A limpeza foi rápida, pois a destruição era rotina nas instalações de teste dos Izzet. Com a força de uma dúzia de goblins e de Yzaak, o ciclope corpulento a serviço de Madarrak, o constructo foi arrastado de volta ao laboratório.

"O senhor esteve muito perto com esse, Mentor", disse Castan, remexendo nos escombros da sala. "O Aparelho de Transporte Bípede chamará a atenção dos Izmagnus."

"Os Izmagnus não significam nada para mim. Apenas a atenção de Niv-Mizzet importa. Mas estamos perto. Teremos apenas que, hum..." Madarrak silenciou. Algo nos destroços chamou sua atenção. No vão formado por duas pedras de parede caídas, uma luz piscava.

Castan tentou completar o pensamento de seu mentor: "Sim, nós o consertaremos. Acredito que o problema seja como a entrada de mana está sendo regulada. Claramente o sistema não aguentou, mas tenho algumas ideias de como isso pode ser remediado. Mentor?" Madarrak segurava uma prancha de madeira nas mãos, que usou para alavancar uma das pedras para o lado. A luz, emanando de um disco do tamanho da palma da mão, continuava a piscar em intervalos regulares, e Madarrak a recolheu dos restos estilhaçados de uma pequena caixa de madeira que fora reduzida a pedaços no desabamento. "O que o senhor encontrou?"

"Não estou familiarizado com isso", disse Madarrak.

Mentor e assistente ficaram parados observando a luz piscante por tempo suficiente para discernir um padrão simples em seus pulsos regulares, que se repetiam indefinidamente.

Madarrak virou o objeto na mão e viu o ícone do dragão Izzet gravado ali. Abaixo do dragão estavam gravados três minúsculos círculos, dispostos de modo que cada um formava o canto de um triângulo invertido. Enquanto estudava atentamente as formas, esperando adivinhar seu significado, ou talvez recordar algum fragmento distante de informação relevante, o objeto deu um solavanco de sua mão e o atingiu na testa.

"Mentor!"

O velho mago cambaleou para trás e, com uma força própria, o objeto deslizou em direção ao buraco na parede. Antes que pudesse ir longe, Castan o prendeu sob sua bota.


Madarrak sentava-se em um banco, curvado para frente, com as mãos nos joelhos. Aquela era a maior altura em que estivera em Nivix, a imponente sede da Liga Izzet, em muitos anos. Niv-Mizzet, a Mente de Fogo, o Dracogênio, estava discutindo o objeto que ele encontrara, talvez até discutindo sobre ele. Os dedos do velho tamborilavam enquanto ele esperava.

Ouviu uma porta ranger ao abrir, depois fechar. Levantou-se para ver um homem vedalken, adornado com as características listras azuis e vermelhas dos Izzet, apoiando-se em uma bengala de mizzium. O vedalken falou enquanto encurtava a distância entre ele e Madarrak. "O senhor já ouviu falar de uma lente de foco de hipermana?"

"Perdoe-me, Camareiro Pelener?"

"Não importa. Imaginei que não." O vedalken, assistente-chefe de Niv-Mizzet, aproximou-se de Madarrak. "Mas o senhor já ouviu falar do quimista Erno Zslod, correto?"

"Com certeza", disse Madarrak. "Eu era novo na Liga quando ele desapareceu enquanto conduzia um experimento. Ouvi dizer que ele era talentoso."

"Muito verdade. Ele desapareceu testando uma lente de foco de hipermana e, depois de algum tempo, obviamente presumiu-se que algo dera terrivelmente errado." O camareiro enfiou a mão no bolso e retirou o objeto pulsante. "Acontece que não foi um erro, mas um sucesso não planejado. Veja bem, Niv-Mizzet reconheceu isto. O Dracogênio explicou ser um mecanismo de busca, um receptor, criado para localizar algo mesmo através de vastas distâncias. O senhor viu isto mover-se, aparentemente por vontade própria, correto?"

Madarrak tocou sua testa machucada e assentiu. "Veja", continuou o camareiro, "este aqui pertencia a Erno Zslod." Ele indicou os três círculos no objeto. "Aparentemente, foi guardado por seus assistentes junto com grande parte de seu equipamento, e teria permanecido escondido se não fosse por sua proveitosa catástrofe. Niv-Mizzet ficou paralisado por isto por mais de um momento, Madarrak. Ele disse que a única maneira de isto continuar funcionando era se algo ainda existisse para ser encontrado. Erno Zslod não desapareceu. Ele teletransportou-se. Niv-Mizzet quer que o senhor encontre Erno Zslod e o que quer que o tenha transportado para longe, e ele quer que o senhor os traga de volta." O Camareiro Pelener entregou o objeto pulsante de volta a Madarrak.


Quando Madarrak retornou ao seu laboratório, não perdeu tempo preparando-se para partir em sua missão para o líder da guilda. "Castan", disse ele, "prepare minhas coisas."

Castan espiou por trás de um livro colossal. "Hum? Ah, enquanto o senhor falava com Niv-Mizzet, eu consegui consertar—"

"Eu não falei com ele diretamente, mas agora estamos em uma missão dele e devemos partir imediatamente. Rápido!"


Havia silêncio fora da cacofonia de Nivix, mas nos túneis úmidos da Subcidade de Ravnica e nos esgotos interconectados, o silêncio era palpável. As paredes estavam escorregadias de algas que absorviam qualquer ruído, dando ao ar uma certa densidade. Com um grande senso de propósito, Madarrak dava passos largos na escuridão. Tanto Castan, uma vedalken esguia, quanto Yzaak, o Ciclope, lutavam para acompanhá-lo.

O esgoto estendia-se por milhas, descendo cada vez mais, os passos do trio guiados pela pulsação regular do receptor que lutava contra o aperto de Madarrak. Passavam por túneis que ocasionalmente se abriam em vastas cavernas, onde a escuridão os pressionava. Onde a luz de suas lâmpadas perfurava o escuro, a arquitetura lembrava reflexos retorcidos de catedrais Orzhov.

A umidade pingava do teto invisível. Uma gota caiu na cabeça de Castan, deslizou por seu pescoço e escorreu por suas costas. Ela estremeceu. "Mentor, o senhor não diz nada há horas."

"Com boa razão!", Madarrak retrucou em um sussurro. "Estamos perto agora. Motivo de sobra para permanecermos em silêncio." Com um súbito surto de força, o receptor saltou da mão do mago de guilda, tilintando no chão. "Ahh!" Ele correu atrás dele, mas o objeto deslizava para fora de seu alcance pelas pedras em curtos impulsos de movimento. Yzaak saltou à frente para proteger seu mestre, empurrando Castan para o lado com seu volume. Ela tropeçou, perdeu o equilíbrio e o peso de sua mochila a puxou para o chão, que a recebeu com um suave ruído úmido. Ela moveu-se rapidamente para se apoiar com as mãos, mas quando estas pressionaram o chão, uma substância gordurosa e gelatinosa escorreu entre seus dedos e cobriu suas mãos. Com os olhos arregalados, ela inspirou bruscamente para gritar, mas apenas aspirou um vapor pútrido que a fez ter ânsia de vômito e se curvar sobre a imundície.

"Levante-se!", sibilou Madarrak. "Rápido!" Ele recuperara a posse do receptor, que agora segurava com ambas as mãos. Castan olhou para seu mentor, que estava parado, fitando a escuridão. "Temos que nos mover." Os olhos dela seguiram o feixe de luz projetado pela lâmpada de seu mentor. Na outra extremidade, olhos olhavam de volta. Castan pôs-se de pé.

"Um fazendeiro de podridão. Ele pode não estar interessado em nós. Vamos continuar andando." Madarrak mais uma vez seguiu a direção do receptor. O Ciclope o seguiu. Castan demorou-se por um momento, tempo suficiente para captar um segundo par de olhos na escuridão. Ela apressou o passo.

O insistente receptor os levou a um arco de pedra que era diferente das passagens anteriores, pois esculpido na pedra angular estava o símbolo insetoide da guilda Golgari. Madarrak colocou a mão no ombro do Ciclope, um hábito claramente praticado muitas vezes, pois Yzaak se abaixou sem instrução verbal para que seus rostos ficassem no mesmo nível. "Yzaak", disse Madarrak, "espere aqui. Mantenha este caminho seguro para nós."

"Mentor?", disse Castan, "Não sabemos o que há à frente. Não seria mais sábio manter Yzaak por perto?"

"Tolice. Sabemos o que há à frente. É o que viemos buscar, e está muito perto agora. Não quero aquela escória Golgari nos seguindo." Madarrak caminhou sob o arco e novamente para dentro da escuridão desconhecida que o teria engolido por inteiro se não fosse pela luz pulsante do receptor que iluminava sua silhueta. "Além disso, somos magos da Liga Izzet, não filhotes acuados", gritou ele de volta. Castan cerrou a mandíbula, respirou fundo e seguiu a luz de sua lâmpada atrás de seu mentor, deixando Yzaak para trás.

A passagem estreitou-se, embora o teto permanecesse alto o suficiente para ser de distância desconhecida. O chão aqui era interrompido por várias fendas das quais emanava um espesso vapor cinza-esverdeado. Seguindo um caminho estreito entre os vãos, Madarrak e Castan abriram caminho cuidadosamente pela superfície irregular.

Na outra extremidade da passagem, onde ela divergia em direções opostas, a luz do receptor subitamente intensificou-se para uma luminância quase ofuscante. Ele libertou-se do aperto de Madarrak e disparou pelo caminho à esquerda. O velho mago de guilda começou a correr. "Rápido, Castan!" Correram atrás do disco brilhante, que ricocheteava de forma estonteante pelas paredes, chão e teto enquanto voava. A respiração de Madarrak tornou-se difícil, ele lutava para manter o receptor à vista, mas não diminuía o passo. Castan estava logo atrás dele, e foram conduzidos por várias voltas e curvas em sua perseguição. Não havia tempo para marcar o caminho.

A perseguição chegou ao fim abruptamente quando o receptor pousou sobre uma pilha de detritos e lama amontoada em um nicho que fora cortado na parede de pedra da câmara. Os perseguidores o alcançaram. Com as mãos nos joelhos, Castan parou um momento para recuperar o fôlego. Seu mentor, no entanto, lançou-se sobre a pilha, cavando-a, trabalhando furiosamente para desenterrar o conteúdo abaixo.

"Mentor", Castan colocou a mão no ombro de Madarrak. A palavra chegou ao velho como um murmúrio distante. "Mentor. Madarrak!" Ranzinza, como se acordado no meio de um sonho, Madarrak virou-se para Castan, que apontava para a parede onde uma série de marcas rudimentares fora rabiscada. Madarrak estava desinteressado, descartando a distração com um aceno de uma mão suja de lama. Nada mais existia naquele momento além de sua redenção, sua aceitação de volta aos Izmagnus. Ela estava enterrada sob a imundície. Ele só tinha que cavar. Seus dedos rasparam contra metal. Seus olhos arregalaram-se e, em um frenesi, ele limpou lama suficiente para revelar os contornos de um capacete. Lembrava o de Yzaak, completo com um único visor circular de vidro que ele limpou com a manga. Hipnotizado, ele encarou sua própria imagem que se refletia no vidro.

Após um momento, um brilho vermelho começou a crescer por trás do vidro. Gradualmente, assumiu a forma de um rosto humano que estava distorcido em angústia.

O rosto falou. Sua voz soava abafada através do vidro, mas as palavras ainda eram claras. "Vocês não deveriam ter vindo."

"Erno Zslod?"

"Vocês não deveriam ter vindo."

Vida no Picadeiro

, author: "Sam Stoddard", doc )

Tiras de estandartes em chamas chicoteavam violentamente ao redor do palco do Carnário, ameaçando incendiar as vigas do teto. Meia dúzia de goblins contrarregras lutavam por ar sob uma viga caída. Havia gritos de alegria e dor quando um canhão, que se soltara das amarras, tombou sobre a multidão. No fim das contas, foi uma das apresentações mais bem-sucedidas de A Ária de Hilrod vista desde o Decamilenar.

Rinni limpou a poeira das roupas, parou no centro do palco e fez uma reverência. Ele se ergueu e levantou as mãos para o ar. Juntou-se a ele Ginoria, que fez sua reverência e apontou para Nikori, que jazia inconsciente nos escombros. Nikori sempre tivera problemas com a aterrissagem.

Ginoria e Rinni desceram do palco, de mãos dadas, em direção à multidão, cujos membros haviam enfrentado o caminho passando pelo canhão ainda fumegante para encontrar os artistas. Rinni levou a mão à perna, passando a palma sobre um corte recém-aberto. Ele ergueu a mão para a multidão, gesticulando da maneira tradicional para indicar: Isto, eu dou por vocês.

"Ginoria", disse o gordo sacerdote Orzhov Silar, enquanto se curvava para beijar a mão dela. "Você está esplêndida. Nunca mais a vejo na igreja."

"Dívidas, como elogios, são melhor pagas pelos mortos", disse Ginoria, sorrindo enquanto retirava a mão.

Rinni continuou, passando seus dedos ensanguentados pelas palmas abertas da multidão, agraciando-os com seu dom, mas parou ao chegar a uma jovem que segurava um pedaço de pergaminho.

"Quem é esta filhote?", Rinni perguntou a Silar. "Você trouxe esta aqui?" Rinni balançou o dedo para Silar e fez um estalo com a língua. "Tentando me enganar para assinar sua dívida de novo?"

"Não sou nenhuma filhote", disse a menina, abaixando o papel. "Desejo me juntar à revista."

Rinni riu. "Ginoria, poderíamos usar esta? Mal dá um petisco para um ogro. Você acha que ela caberia em um canhão?" Ele se abaixou e a ergueu pela camisa. "Hummm, talvez sirva apenas para o graveto, hein?"

A menina debateu-se, girando no ar e levando o pé quase ao rosto de Rinni. "Solte-me, velho", disse ela. "Tentei lhe fazer um favor. Sua revista é lixo. A Juri me aceitará e será perda sua."

"A Juri comeria você viva", disse Rinni. "Vá para casa, filhote, antes que se machuque." Ele soltou a menina, que rolou para trás em uma cambalhota, lançou-se à posição de pé, ergueu um braço para o céu e depois cuspiu no rosto de Rinni.

O sacerdote recuou a mão para bater nela, mas a menina disparou para a multidão, agarrou-se ao andaime e lançou-se para as vigas do Carnário, desaparecendo de vista.

"Escória sem guilda. Sem respeito", disse Silar, retirando um pano das dobras de sua túnica para limpar o rosto de Rinni. "Ela poderia ser encontrada, você sabe."

Rinni fez um gesto de descaso. "Não, não", disse ele, pegando o pano e limpando a saliva. "Ela tem o fogo. É um prazer ver isso em alguém tão jovem."

Rinni devolveu o pano a Silar, que o guardou em sua túnica — que, sem dúvida, logo se tornaria parte de sua coleção. Rinni agradeceu e dirigiu-se aos bastidores, para o seu camarim. Lá, ele desabou na ampla cadeira em frente ao espelho. Fazendo uma careta, ele retirou o pesado couro acolchoado de seu figurino, deixando-o cair no chão peça por peça. O suor e o sangue o haviam encolhido meio tamanho. O acolchoamento pesado adicionava peso, tornando a apresentação mais difícil, mas ele precisava dele. A cada ano, tornava-se mais difícil recuperar-se dos golpes e quedas.

Suas mãos machucadas e inchadas tatearam os frascos em sua mesa — tônicos feitos pelos Simic para vitalidade e força e uma poção Izzet que brilhava em um azul não natural e emitia um zumbido quase inaudível. Ele finalmente encontrou e abriu um pote de bálsamo, cultivado pelos Selesnya, que logo suavizaria a dor e minimizaria qualquer cicatriz.

Depois de aplicar uma segunda camada, Rinni dirigiu-se à cama no canto de seu camarim. Do lado de fora, ele ainda podia ouvir o rugido da multidão no próximo ato, bobos de espinhos de grande habilidade. Em seus dias de juventude, ele teria assistido das laterais, mas a apresentação exigira demais dele. Por esta noite, haveria apenas o sono.


O Carnário visto de cima não era uma visão que Rinni presenciava há algum tempo. Ele procurava a menina que o colocara tão sucintamente em seu lugar duas noites antes. Ele a encontrou no andaime perto do teto do Carnário, uma altura que ele próprio tivera dificuldade em escalar. Os pés dela estavam balançando sobre a borda, e ela observava o grande Minyuli se apresentar. O ato era modelado nos simples truques de salão dos mágicos de rua que se apresentavam perto de Nova Prahv. O assistente goblin de Minyuli o amarrava e o torturava, e Minyuli deleitava-se na dor para melhor concentrar sua magia — uma técnica que ele anunciava como a Projeção da Dor — e enviava uma bola de fogo contra o goblin justo quando este pensava que finalmente enganara o mago.

O goblin, que já usava algumas bandagens para cobrir queimaduras ainda não curadas, amarrara e prendera Minyuli a uma mesa invertida, cravara alfinetes em seus pés e flancos e montara um elaborado sistema de polias para esticá-lo em uma estrapada do meio do palco. Para completar, o goblin se encolhera em um barril cheio de água para esquivar-se da bola de fogo que certamente viria. Conforme o goblin girava a manivela para a quinta posição, vapor começou a sair do barril. O goblin rapidamente saltou para fora do barril, cujo conteúdo começara a transbordar fervendo, e correu loucamente pelo palco tentando se secar do conteúdo fervente. Quando ele bateu o rosto contra uma viga de sustentação, a menina soltou um riso abafado.

"Pessoas sem ingresso são jogadas aos cães, você sabe", disse Rinni.

A menina olhou para trás para vê-lo, depois voltou-se para frente e encarou o chão lá embaixo.

"Alto o suficiente para machucar, não o suficiente para matar", disse Rinni. "Mas sente-se, fique, Pequena Filhote. Não vim aqui para lhe fazer mal."

"Você quer me dizer para ir para casa de novo?", disse ela, voltando a observar o palco. "Você não acha que eu consigo me virar no seu circo?"

"Oh não, é claro que consegue", disse Rinni, baixando-se lentamente na beirada. "Acho que Silar teve sorte por você ter escolhido fugir em vez de lutar. Talvez até você fosse útil no picadeiro algum dia. Só me pergunto se é para os Rakdos ou não. Mas é muita grosseria da minha parte." Ele estendeu a mão. "Eu sou Rinni."

"Eu sei quem você é", disse a menina.

"Não gosto de presumir", disse ele. "Dez anos atrás, sim, os próprios árbitros Azorius me tirariam o chapéu, mas a fama dificilmente se mantém em alguém como um manto." Rinni fez uma pausa por um segundo. "Esta é a parte onde você se apresenta."

"Lunicia", disse ela. "Lunicia, a Tremenda. Pelo menos algum dia."

"Eu tinha a sua idade quando vi minha primeira revista", disse Rinni. "Mais jovem, talvez. Dança das Nove Correntes." Rinni deu uma risadinha. "O fulcrumista era incompetente. Os dois primeiros pares que vieram em sua direção ele lançou diretamente na multidão. Eles adoraram, é claro — carnificina é carnificina — mas o mestre de cerimônias não ficou nada satisfeito. O próximo par veio com arame farpado em vez de uma corrente. Você deveria ter visto a cara dele." Rinni fez uma expressão de choque exagerado, levando as mãos ao rosto com os dedos dobrados para imitar tocos.

"Isso não tem graça", disse Lunicia. "Era uma pessoa."

"Oh, não se preocupe", disse Rinni, "eles colocaram dois ou três de volta. Ele seguiu para ter uma bela carreira como andarilho de correntes. Curta, é verdade, mas bela."

No palco, uma dançarina balançava entre uma série de mastros e correntes usando dois ganchos, um montado em cada mão. Ela mantinha o corpo rígido e reto, e ganhava impulso girando em torno de um mastro apenas para se lançar no ar, curvar-se para cima, agarrar-se a uma corrente e balançar até um mastro separado, então instantaneamente revertia a direção e lançava-se pela sala em outra direção.

"Às vezes não entendo como todos vocês conseguem realizar atos de tamanha beleza em um suspiro", disse Lunicia, "e tamanha brutalidade no próximo."

"Coisa engraçada sobre o Centralum", disse Rinni. "A dançarina leva anos para se preparar. Os ganchos não são presos aos pulsos dela, são implantados. Cada mudança de direção traz dor total à dançarina."

Lunicia passou as mãos sobre os pulsos. "Isso é horrível", disse ela.

"Não há outra maneira de o corpo dela suportar o estresse", disse ele. "É uma coisa feia de se fazer, mas uma coisa linda de se contemplar."

"Estou começando a sentir que estaria mais segura sem uma guilda", disse ela.

"Ah, segura, sim. Você quer ser uma acrobata segura? Apresente-se nas ruas. Ser um Rakdos é mais."

A menina voltou-se para o palco. "Para que eu possa envelhecer como você?", perguntou ela. "Apresentar-me até que meu corpo pare de funcionar?"

"Artistas Rakdos não envelhecem no picadeiro", disse Rinni. "Eles continuam exatamente pelo tempo que devem continuar. Adquirem habilidades. Adquirem cicatrizes. Seus movimentos podem ser prejudicados, eles podem desacelerar, mas tudo faz parte da dança. Eles desempenham o papel que deveriam desempenhar. Para fazer as pessoas rirem. Para lembrá-las de quão preciosas e quão fugazes são as nossas vidas, não importa quão duras ou curtas. Nossas vidas são um presente."

"Você fala como se ele fosse um deus", disse Lunicia. "Onde está a glória nisso?"

"Nossas vidas são fugazes, mas a dele não é", disse Rinni. "O povo precisa do entretenimento, sim, mas não subestime o Demônio. Os nove paruns deram ao Demônio uma guilda para entretê-lo — para saciar sua sede de sangue. Apenas a Mente de Fogo resta entre os que sabem do que o Demônio é verdadeiramente capaz. Nós, Rakdos, nos apresentamos — vivemos e morremos — para apaziguá-lo, para que o Demônio possa retornar pacificamente ao seu sono."

Ele assinou e datou o papel. "Assista ao show hoje à noite. Se você nunca mais voltar, eu não a culparia. Guarde este papel para lembrar o porquê. Mas acho que talvez isso a intrigue."


A apresentação começou com Nikori nas correntes altas, caminhando com duas tochas nas mãos. Ao chegar ao centro da corrente, começou a malabarizar as duas tochas, lançando-as de uma mão para a outra. Rinni entrou no palco com duas tochas próprias, que malabarizava de um lado para outro com Nikori, bem acima dele. Justo quando parecia que nenhum dos dois conseguiria sustentar o ciclo por mais tempo, Ginoria entrou no palco com mais duas tochas, que lançava uma a uma para Rinni, que as adicionava à rotação.

As tochas moviam-se cada vez mais rápido, até que as mãos de Rinni irromperam em fogo. As tochas caíram ao chão enquanto a chama nas mãos de Rinni crescia, mas não sem controle. Fluía de suas mãos como fumaça de um turíbulo. Moldando o fogo em uma esfera na mão esquerda, ele a manipulava com a direita, encorajando jatos a emergirem como pináculos na bola.

Ginoria deu um gole de uma garrafa, e um líquido preto escorreu de seus dedos, assumindo a forma de gavinhas pegajosas serpenteando pelo palco. Rinni e Ginoria deram os braços e começaram a girar impossivelmente rápido pelo palco. O icor espalhou-se como lâminas giratórias circulando sobre a cabeça da multidão até que as chamas o atingiram, incendiando-o e criando fitas de fogo que dançavam pelo ar. O perfume no ar era de enxofre queimado.

Tão rápido quanto começou, as chamas das mãos de Rinni e o icor das de Ginoria extinguiram-se, e os dois caíram ao chão. A multidão vaiou e gritou de alegria. Levantando-se lentamente, Rinni fez uma reverência e depois apontou para Ginoria e Nikori, que fizeram sua reverência por sua vez.

Reunindo o pouco de força que lhe restava, Rinni ergueu-se novamente para o ato final. Cada apresentação em toda a sua vida estava levando a esta. Este era seu único ato inesquecível, aquele que ninguém que fosse alguém admitiria ter perdido. Este era o grande encerramento.


A risada baixa e estrondosa do Demônio pôde ser ouvida por todo o salão, o que fez a plateia explodir em êxtase. Era um som diferente de tudo o que Lunicia já ouvira antes. A maneira como ele sacudia o salão era ao mesmo tempo aterrorizante e estranhamente confortante. Lunicia observava enquanto espectadores jovens e velhos lutavam por lembranças do evento — algo para recordá-lo, algo para provar que estavam lá em carne e osso quando aconteceu. Em uma semana, uma dúzia de outros artistas em outros circos imitaria o ato — mas esses espectadores sabiam que estavam lá na primeira vez. Lunicia foi preenchida por um sentimento de pesar, mas também de empolgação. Ela entendia o que Rinni lhe dissera agora.

Abrindo caminho pelos bastidores em meio ao caos, ela procurou o camarim de Rinni para tentar descobrir como ele fizera aquilo. Lá, viu os bálsamos, as pomadas e a garrafa quase vazia, mas ainda de algum modo elétrica, com o proeminente sinete Izzet. Foi então que soube que, não importa o quão habilidosa pudesse se tornar, suas acrobacias nunca seriam suficientes sozinhas — ela precisaria adquirir aliados em outras guildas.

Lunicia pegou o que pôde do camarim de Rinni. Ela iria ao gordo sacerdote, Silar. Com certeza ele compraria seu autógrafo de Rinni e algumas dessas bugigangas. Ela teria moedas no bolso e um contato na igreja. Aliados que poderiam lhe fornecer os meios para superar não apenas Rinni, mas todos os artistas em todos os circos de Rakdos. Poderia levar anos, mas ela colocaria o Demônio de pé — não para rir baixo, mas para ouvi-lo rugir de prazer. O custo não importava.

A Perseguição, Parte 2

, author: "Ari Levitch", doc )

"Vocês não deveriam ter vindo."

As palavras pairaram por um momento no ar estagnado da câmara úmida do esgoto.

Madarrak ajoelhou-se diante do traje de mizzium que descobrira na lama. Sua assistente vedalken, Castan, espiou por cima do ombro dele para as profundezas do capacete esférico do traje, de onde viera a frase perturbadora. Ela encarava os olhos ardentes de um rosto humano brilhante que retribuía o olhar por trás do vidro espesso do visor do traje.

Madarrak bateu no vidro com o dedo indicador. "Você é Erno Zslod?", perguntou o envelhecido mago Izzet, com um toque de impaciência na voz.

O rosto dispersou-se em uma nuvem rodopiante de energia e subitamente se reformou. "Eu estou condenado."

Madarrak segurou o receptor contra o vidro. "Isto nos trouxe até você. Estamos procurando por Erno Zslod, o quimista Izzet que desapareceu de seu laboratório há mais de trinta anos."

"Eu condenei a todos nós."

Madarrak levantou-se bruscamente em frustração e chutou a lama. Castan ocupou o lugar de seu mentor, cara a cara com o ocupante do traje. Ela segurou o capacete com as duas mãos e disse: "Estamos aqui para ajudá-lo." Após um momento, Castan sentiu o mizzium aquecer.

"Estamos além de qualquer ajuda."

"O que aconteceu aqui?", ela insistiu.

E como se a pergunta de Castan fosse uma válvula de escape para décadas de pressão, a voz irrompeu: "A lente de foco de hipermana que projetei funcionara. Eu tinha certeza. Mas depois de me encontrar com eles, eu a alterei." Em um instante, o metal do capacete tornou-se desconfortavelmente quente, e Castan teve que soltá-lo. "Eu alterei o projeto. Algo me compeliu a fazer isso. Quando ativei o dispositivo, ele nos trouxe para cá. De algum modo, eu sabia que traria. Como? Como eu sabia? Eles tinham o controle da minha mente! Devem ter tido. Eu estivera doente. Tossindo e vomitando — muco! Eles fizeram isso. E fomos condenados por isso. Todos nós estamos condenados!"

"Quem são eles? Os Izmagnus? Dimir?" Castan olhou ao redor. "Golgari? Quem?"

"Os Golgari não vêm mais aqui. Eles sabem que é melhor não vir."

"Quem então? Quem o deixou doente?"

"O biomante."

Castan lançou um olhar inquisitivo. "Simic?"

"Quando aparecemos aqui, eu já havia me transformado no que sou agora."

"O dispositivo reagiu com o traje de mizzium", disse Madarrak. "Onde está o dispo—"

"A transformação limpou minha mente, curou-me. Então coisas vieram nos buscar na escuridão. Não me notaram; só posso supor que tenha sido por causa da minha nova forma. Mas levaram meu assistente, Johrum, que já começara a mudar."

"Mudar para quê?"

"Não importa isso agora", Madarrak retrucou. "Precisamos encontrar o dispositivo. Onde está o que trouxe vocês para cá?" Madarrak remexeu em mais sujeira. Um grande cilindro, fundido em mizzium, revelou-se entalado entre o traje e o chão do esgoto. "Deve ser isto!"

"Mentor", disse Castan, "e agora?"

Madarrak acenou para ela. "Recuperamos o dispositivo."

"Não é isso que eu quero dizer. Olhe."

Madarrak olhou. Na outra extremidade da câmara, parcialmente envolta em sombras, estava uma figura encarando-os. A criatura deu um passo à frente. Suas pernas não eram de uma pessoa, mas de um inseto. Então mais duas pernas. Da cintura para cima, era humanoide, mas protegida por uma carapaça. Empunhava um machado formidável.

"Estamos condenados!", disse a voz no capacete.

Outra dessas criaturas emergiu das sombras, seguida por uma terceira. Falavam em uma série de estalos agudos e, embora as palavras fossem desconhecidas para os magos Izzet, sua intenção era clara. A criatura à frente ergueu seu machado em direção a eles, e as criaturas investiram.

Uma energia azulada e crepitante formou-se ao redor das mãos de Castan. "Mentor?", perguntou ela.

"Faça."

Castan ergueu as mãos e raios de eletricidade arquearam-se ao seu redor. Ela os lançou contra os atacantes. Os raios encontraram seus alvos, atingindo os exoesqueletos em três estalos distintos. Cada uma das criaturas desabou no chão em pleno movimento, como três cascas sem vida. Castan ficou boquiaberta, parada por um momento, atônita com sua própria demonstração de poder destrutivo.

Madarrak lutava com o cilindro: "Rápido, ajude-me." Castan veio em seu auxílio e, juntos, conseguiram soltá-lo.

Um coro de incontáveis pernas correndo e estalos indistinguíveis permeou a câmara, tornando-se mais alto e ecoando pelas alturas invisíveis.

"Mentor! Mais deles estão vindo!"

Madarrak amarrou o cilindro às costas e, por um momento, perdeu-se em seu próprio mundo de redenção iminente. As palavras de Castan pareciam de algum modo distantes. Algo pesado atingiu seu ombro, trazendo seus sentidos de volta ao presente. "Hã?" Instintivamente, sua mão foi para onde fora atingido, e ele sentiu uma massa gelatinosa espessa. Ergueu o olhar e espiou para as sombras que pareciam estender-se infinitamente para cima.

Havia movimento lá em cima. Antes que Madarrak pudesse processar o pensamento, a coisa estava sobre ele. O mago Izzet subitamente viu-se preso contra o chão, lutando com uma figura que tinha forma humana, mas era maciça e grotesca.

Castan moveu-se para ajudar seu mentor, mas seu caminho foi bloqueado por dezenas de guerreiros kraul que jorravam para dentro da câmara. Ela estava cercada. E não se conteve. A escuridão cedeu à luz severa da energia crepitante que ramificava das mãos da assistente.

"Estamos todos condenados!", declarou a voz no capacete mais uma vez.

Madarrak lutava para libertar as mãos para conjurar algo, qualquer coisa. O volume da coisa mutante era grande demais. Ela olhou Madarrak no rosto e um grande glóbulo translúcido azul-esverdeado emergiu de sua boca aberta. Ele escorregou, mantido ali por um momento por fios de saliva pegajosa antes de cair. Madarrak virou a cabeça na tentativa de evitar o muco, mas este o atingiu na lateral do rosto e, por conta própria, começou a se mover em direção ao seu nariz e boca.

"Johrum!" Madarrak ouviu a voz familiar e, pelo canto do olho, viu um rastro de fogo cruzar seu campo de visão. Ele chocou-se contra o mutante, derrubando-o de cima do velho. O fogo assumira a forma vaga de um homem, girando ao redor do mutante.

Sem perder o ritmo, Madarrak levou as mãos ao rosto. Sentiu o muco, que atingira suas narinas e o canto de sua boca. Deixou a eletricidade fluir de seus dedos. Ao contato, o muco enrolou-se e caiu.

O único sinal de Castan era o relâmpago que arqueava do lado oposto da câmara. Entre mentor e assistente havia krauls além da conta. O mutante rasgou o que restava de Erno Zslod em dois. Não havia tempo a perder. Madarrak estendeu os braços e um jato de vapor fervente irrompeu de suas mãos, engolfando completamente o mutante. Bolhas surgiram em sua superfície e ele caiu no chão com um grito horrível. Krauls voltaram-se para ele, e houve apenas uma coisa que ele pensou em fazer.

"Yzaak! Yzaak, a mim!" A voz de Madarrak estava rouca enquanto ele corria pela passagem familiar em direção ao ciclope corpulento, que estava sentado com as costas contra uma parede escorregadia de algas. Mesmo que Yzaak não atendesse aos chamados de Madarrak, o velho encontrou conforto na visão do Ciclope. Quando alcançou Yzaak, permitiu-se um momento de descanso. Estava sem fôlego, seus joelhos tremendo pelo esforço da corrida e pelo peso do dispositivo de Erno em suas costas. "Venha, Yzaak", Madarrak apoiou-se no braço blindado de Yzaak. "Temos que sair daqui."

O Ciclope permaneceu imóvel.

Madarrak sacudiu o braço de Yzaak e, sob sua mão, a manopla de Yzaak cedeu, desmoronando em uma nuvem de poeira marrom-avermelhada. Ele saltou para trás horrorizado e ergueu sua lâmpada para iluminar a cena. A luz que banhou o local revelou o Ciclope em estado de decomposição. Os aprimoramentos de mizzium haviam corroído. Onde a carne estava exposta, a putrefação começara, e crescimentos fúngicos brotavam.

Ele recuou e desabou de joelhos, lutando contra o impulso de gritar ou vomitar. Os Golgari haviam condenado este lugar, e ele se lembrou dos olhos na escuridão. Não eram fazendeiros de podridão, mas observadores. Sentinelas. Lentamente, Madarrak ergueu a lâmpada para a escuridão além da passagem.

Olhos na escuridão. Olhos que estavam ficando maiores.

Madarrak estava sozinho. Era apenas ele, acompanhado apenas pelo cadáver apodrecido de Yzaak e pelo de Erno...

Ele apressou-se para tirar o dispositivo das costas. Um arrastar de pés era audível na escuridão e, embora Madarrak soubesse que membros da guilda Golgari estavam convergindo sobre ele, não se importava. Ele tinha sua tarefa. Nos breves momentos de luz, analisou a engenhoca Izzet, permitindo que seus dedos intuíssem como funcionava. O dispositivo subitamente ganhou vida com um zumbido, e Madarrak o jogou sobre as costas.

Uma nuvem de poeira girou ao seu redor e, em um instante, ele se fora.

Antes que a poeira baixasse, Madarrak foi bombardeado pelo familiar crepitar de energia, sibilar de vapor e tinir de metal em mizzium. Não tinha certeza de sua localização precisa, mas conforme o último vestígio do cheiro de esgoto se dissipava, estava pelo menos certo de que retornara a Nivix, a torre da guilda da Liga Izzet. Não havia um momento a perder. O dispositivo de Erno funcionava, e ele devia relatar isso a Niv-Mizzet imediatamente.


Madarrak retornou de seus aposentos após o encontro com Niv-Mizzet. Seus aposentos eram pouco mais que um catre modesto em um nicho apertado em um canto de seu laboratório. Ele retirou as camadas de roupas de seu corpo cansado. O tecido ficara rígido devido à lama seca e à podridão. O velho, de volta às boas graças do Dracogênio após entregar o teleportal de Erno, deveria encontrar seu líder de guilda novamente assim que conseguisse se limpar e comer algo. Ficou parado por um longo momento, olhando para as vestes sujas amarrotadas entre as mãos. Sua testa franziu-se. Seus pensamentos foram para as palavras que o seguiram pelos esgotos: "São muitos deles, Mentor! Mentor!" Eram muitos. Que escolha ele tivera? E Yzaak. Os Golgari sabiam o que estava escondido em seu território abandonado. Eles garantiam que nada saísse de lá.

Sentiu os dedos se fecharem e, conforme apertavam o tecido, envolveram algo sólido. Madarrak sacudiu suas roupas amontoadas, e o receptor caiu no chão, com a luz pulsando na sequência tão familiar.

Ele começou a deslizar em direção à porta.

Não para Erno.

Castan?

Madarrak vestiu novamente suas roupas imundas. Apanhou o receptor do chão. Niv-Mizzet teria que esperar. Ou não. Para Madarrak, não importava mais. Estava cansado, mas não deixaria sua assistente para os testes distorcidos dos Simic.

Seus olhos caíram sobre o monstruoso constructo bípede que começara tudo isso ao abrir caminho para o laboratório abandonado de Erno. Fora montado novamente. Aos pés do constructo estava seu esquema. Pequenas pilhas de pedaços de metal e ferramentas em cada canto evitavam que ele se enrolasse. Embora Madarrak reconhecesse os desenhos como seus, também notou notas e minúsculos diagramas que haviam sido rabiscados por outra mão — a mão de Castan. Olhou do esquema para o constructo, e de volta mais uma vez. Os ajustes de Castan faziam sentido. Pareciam tão simples, vendo-os como apareciam em sua caligrafia rústica, e no entanto haviam lhe escapado. Sem tempo para isso agora. Tinha que funcionar.

Subiu no assento do piloto sobre os ombros do constructo. Girou botões e acionou interruptores. A energia surgiu no constructo. Tudo soava certo. Parecia certo. Com aquilo, ele salvaria Castan. E, falhando nisso, traria toda a instalação amaldiçoada abaixo sobre si mesma.

Preparava-se para acionar a alavanca final quando sentiu algo respingar nas costas de sua mão. Outra gota, esta caindo sobre um conjunto de medidores. Conforme deslizava pelo vidro, ele viu ser um material viscoso azul-esverdeado. O rosto do velho ficou pálido e ele olhou para cima, escondendo-se atrás de um armo erguido. Nada. Seus olhos percorreram freneticamente o teto de seu laboratório. Ainda nada. O horror o dominou, e ele levou uma mão trêmula ao nariz. Quando a retirou e olhou para ela, seu horror foi confirmado.

Os Cem Degraus

, author: "Adam Lee", doc )

Eles estavam encurralados.

Jek sabia que a chave era fundamental, mas não percebera até que ponto os Dimir iriam para recuperá-la. Agora, ele e sua irmã, Vinni, agachavam-se entre as paredes do pequeno apartamento; ambos sabiam que a ajuda não viria — não tão longe dentro do Nono Distrito. Estavam por conta própria.

Ele conseguia ver os grãos de poeira flutuando no minúsculo feixe de luz solar que perfurava o escuro vão entre as paredes. Ao lado de Jek estava Vinni, seu rosto uma mistura de medo e esperança. Lá fora estavam o albino louco e seus capangas deformados, que babavam como cães raivosos. Assassinos por diversão Rakdos. Jek acabara de sair da Academia Azorius, mas seus instrutores não o haviam preparado para uma situação como aquela.

Jek despachara facilmente um bando de bandidos da casa de sangue — fácil demais — quando percebeu que eles eram apenas porcos de sacrifício usados para esgotar sua magia Azorius.

Agora o albino viera para fazer o trabalho de verdade.

"Jek, Jek, Jek, Jek!" O albino gritava enquanto arrastava sua faca de esfolador pelo chão, deixando um rastro irregular de madeira lascada. "Acorda, acorda!"

Um bobo de espinhos gargalhava e dava cambalhotas. Ao abrir um buraco na parede, gesso e poeira choveram e encheram o nariz e os olhos de Jek de areia. Vinni recuou reflexivamente e apertou as mãos com força sobre as orelhas. A mente de Jek corria. Era apenas uma questão de tempo até que o albino trouxesse um viralata de fúria para farejá-los. Tinham que se mover. Agora. Sob o estrépito das provocações do albino, Jek deslizou cuidadosamente até Vinni e sussurrou em seu ouvido. "Ele vai trazer cães. Temos que sair daqui."

Vinni assentiu. Ela amava o irmão. Quando ele voltou da Academia, ela achou que não havia pessoa mais nobre em Ravnica. Ele estava no caminho para se tornar um hieromante — um protetor das pessoas e da lei — e ela queria seguir seus passos.

Eles estariam seguros. Jek os tiraria dessa.

Jek desembainhou lentamente sua espada curta e pegou sua adaga, aquela com sigilos Azorius gravados na lâmina, e a pressionou na mão da irmã. Vinni fechou os dedos ao redor do cabo envolto em couro. Parecia pesada e perigosa, o que a fez se sentir um pouco melhor. Ela cerrou a mandíbula e assentiu. Jek respirou fundo e esperou junto à fresta na parede, seu olho iluminado pelo estreito feixe de luz.

O bobo de espinhos estava em um frenesi de júbilo — perigoso, mas distraído — mas Jek não conseguia mais ver o albino, o que o preocupava. Teriam que arriscar. Jek deslizou lentamente o painel e sussurrou um feitiço. Uma energia azul crepitante disparou e acorrentou o bobo de espinhos com glifos Azorius brilhantes.

O bobo abriu a boca para berrar alguma obscenidade, mas a bota de Jek colidiu com sua cabeça, fazendo os guizos de seu chapéu tilintarem e seus dentes chocalharem. O bobo voou pela sala e desabou num canto. Vinni correu para a porta e parou enquanto Jek golpeava dois outros andarilhos de correntes que haviam invadido a sala, deixando-os caídos no chão. Jek e Vinni correram pela rua de paralelepípedos escorregadia e dobraram uma esquina, apenas para encarar a silhueta maciça de um ogro bloqueando o caminho. Jek fez uma curva brusca e jogou o ombro contra uma porta. O batente estilhaçou-se e Jek empurrou Vinni para dentro do cômodo. A corrente do ogro zuniu e atingiu Jek no ombro, enviando sua espada tinindo pelo beco. Mais duas correntes farpadas seguiram-se, retalhando e enredando Jek. Ele lutou e caiu sobre as pedras, tentando alcançar sua espada.

Pelo canto do olho, viu um punho pálido desferir um golpe como uma serpente, enviando Vinni estatelada para o limiar. Das sombras, Jek viu o albino louco sorrir com malícia alegre enquanto passava por cima de Vinni e, com indiferença, sacava sua lâmina.

"Jek, Jek, Jek. Você tem algo que meu mestre deseja", sibilou o albino.

Jek enviou um raio de energia azul contra o albino, mas ele falhou e estalou. O ar cheirava a ozônio enquanto o albino fazia uma careta fingida de choque e descrença.

"Ooooh? O que aconteceu?" O albino dançava ao redor enquanto Jek tentava escapar das correntes do ogro e rasgava seu manto e pele no processo. "Aposto que você praticou esse feitiçozinho por meses." Então, rápido como uma serpente prateada, o albino cravou sua lâmina de esfolador no corpo indefeso de Jek.

"Ahhh. Isso doeu?" O albino desdenhou enquanto se ajoelhava e sussurrava no rosto de Jek. "Aposto que sim."

"Devo estraçalhar a outra, Chefe?", perguntou o ogro.

"A garota não representará muito prob..." Uma lâmina delgada com sigilos Azorius surgiu da garganta do albino louco como uma língua prateada que cuspia jatos de carmesim sobre sua carne pálida. A expressão de confiança presunçosa do albino transformou-se em choque enquanto ele lutava para se manter de pé em pernas que não funcionavam. Tentou rir, mas tudo o que saiu foi um grasnido aquoso. Apertou seu ferimento escancarado com dedos dormentes. O albino desabou, de rosto no chão, em um amontoado aos pés de Vinni.

O ogro pareceu chocado e tentou recolher rapidamente suas correntes, mas elas estavam emaranhadas no corpo de Jek. Vinni ouviu o irmão entoar fracamente um feitiço com o que restava de suas forças. A adaga que ela segurava irrompeu em fogo azul. Outra onda pulsante atingiu o ogro, fazendo seus joelhos cederem. Ela investiu contra o ogro enfraquecido e o cravejou com estocadas de sua adaga até que o bruto parou de se mover.

Vinni correu até Jek, ajoelhou-se ao seu lado e gentilmente aninhou a cabeça dele em seus braços. Começou a dizer algo, mas Jek levantou a mão fracamente e tateou em sua túnica.

"Vinni. Pegue isto. É uma evidência. Entregue a Halok." Jek colocou uma chave ornamentada na mão dela. Estava fria e tinha o selo da guilda Dimir. A respiração de Jek vinha em arquejos irregulares entre as palavras. "Vá para a coluna Jelenn, a escola dos hieromantes. Eles cuidarão de você agora."

Vinni conteve uma lágrima. "Jek."

"Seja forte." A mão de Jek escorregou para o chão. Seus olhos perderam o foco lentamente enquanto seu último suspiro se esvaía.

"Jek."


Vinni caminhava pelas ruas perigosas do Nono, manchada de sangue, desgrenhada e consumida pelo luto. Mas algo dentro dela começou a se transformar. No seu interior, uma mola de aço desenrolava-se lentamente, transformando-se em uma determinação implacável que fortificava seu ser e focava sua vontade como uma lâmina de barbear.

Ninguém. Atreva-se. A. Entrar. No. Meu. Caminho.

Ela seguia por becos e ruas laterais, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Uma parte dela esperava encontrar algum capanga Rakdos de dentes tortos. Especialmente um que achasse que ela seria um alvo fácil. Ela visualizava descarregando toda a sua dor bem na cara beligerante daquele brutamontes. A imagem a manteve seguindo em frente pela perigosa jornada para fora do Nono.

Ela eventualmente chegou à base dos Cem Degraus, a antiga escadaria de pedra que era o portal de saída do Nono. Vinni subiu os degraus, lentamente. Parecia que ela deixava alguma parte antiga de si para trás a cada passo que dava — fraqueza, incerteza, dúvida. Em cada degrau, deixava uma parte velha de seu ser que não lhe servia mais. Cada passo era um golpe de martelo, moldando sua vontade em uma forja espiritual, até que sua mente se iluminou com propósito e clareza. Ela subiu além dos bairros sem guilda até o topo dos degraus, onde diante dela estava o Portão da Guilda Azorius. Além dele estava a ampla avenida que corria por milhas através de Nova Prahv, terminando finalmente no Fórum de Azor.

Ela parou no topo dos degraus e atravessou o limiar do antigo portão para emergir no outro lado, não mais uma criança. Mesmo a milhas de distância, conseguia sentir o poder do Fórum de Azor. Ele a chamava, como se milhões de Azorius antes dela entoassem seu nome em reconhecimento. Como se tivessem esperado por milênios incontáveis por aquele momento.

"Eu não falharei com vocês", disse ela para eles.


O sol acabara de nascer.

Raios de luz atingiam as torres maciças de Nova Prahv e elas brilhavam como fogo branco. Vinni passou pela Coluna Jelenn, passou pela academia de hieromantes onde seu irmão estudara nos últimos anos. Dirigiu-se direto para a Coluna Lyev, direto para o centro de recrutamento daqueles que impõem a lei — aqueles que investigavam os piores casos de Ravnica, que tinham as mãos na garganta da ilegalidade. Ela queria o treinamento mais árduo, o sargento mais temido, o corpo de elite mais seleto. E, acima de tudo, queria ser designada para os distritos mais perigosos.

Ela atravessou as portas altas da Coluna Lyev e marchou pelo vasto salão de mármore, subiu a escadaria até o terceiro nível e foi direto ao Escritório de Admissões. As filas de candidatos e assistentes afastaram-se instintivamente, como se empurradas por sua vontade.

Ela bateu com a adaga ensanguentada sobre a mesa, olhou o Escrevente de Submissões nos olhos e falou com uma voz que preencheu a câmara:

"Meu nome é Lavínia. Quero ser uma prendedora."

Último Dia

, author: "Colin Kawakami", doc )

A Academia da Fonte do Lar era uma das escolas mais exclusivas de Ravnica, respeitada pela amplitude e qualidade de seu currículo, e única por ser gratuita. Bolsas de estudo estavam disponíveis para todas as crianças, de qualquer espécie ou condição social, e concedidas apenas às mentes mais brilhantes de cada geração. A AFL não era uma escola preparatória para as guildas; o prestígio era conquistado com trabalho duro, não com fanatismo, e se os alunos não fossem dedicados, não duravam.

Mas este era o Último Dia antes das férias de verão e, como de costume, as crianças ficaram um pouco malucas.

Liric sentava-se em um banco de pedra à beira do jardim de esculturas da escola e observava centenas de crianças dançarem ao redor da Fonte do Lar enquanto esta explodia em luz. A maioria delas usava fantasias de guilda feitas em casa, e as turmas mais novas despejavam ilusões coloridas na enorme bacia enquanto os veteranos gritavam ordens. Era seu quinto ano como instrutor na AFL, e este dia de campo era tão comovente quanto o primeiro. Não, ainda mais. Por um único batimento, seu coração deu uma pontada no peito; se esta noite não corresse como planejado, ele não voltaria no próximo ano.

"Professor L! Professor L!" Liric respirou fundo e depois se virou. "Professor L! Tenho algo para o senhor; queria lhe dar isto!" Era Skrygix, uma goblin de sua classe de história avançada. Ela vinha correndo, rebocando seu irmãozinho com a mão esquerda e segurando uma folha de papel enrolada na direita.

O irmão dela estava vestido como um Hussardo Azorius e seu capacete de papelão pintado pendia sobre seus olhos. Ele estava limpando o nariz. "Eu quero ir na fonte!" Ele empurrou o capacete para trás.

"Tudo bem, vá brincar." Skrygix o soltou, e ele saiu marchando para a multidão. Ela gritou atrás dele: "Não se molhe!" Ela usava um vestido branco com uma gola preta pintada, mas o ponto de exclamação era seu tufo de cabelo laranja penteado com gel no formato de um adorno de cabeça de aristocrata Orzhov.

"Fiz isto para o senhor!" Ela esticou o braço e ofereceu o rolo a Liric. Ele o pegou e desenrolou com o cuidado praticado de um professor. Era uma pintura de sua sala de aula, mas com o teto ridiculamente alto, e o próprio Liric retratado como um gigante Gruul de óculos, agachado para caber e apontando para o quadro com um pedaço de giz do tamanho de um tronco. Liric riu.

Skrygix sorriu de soslaio, mas rapidamente desviou o olhar enquanto Liric enrolava a pintura novamente.

"Obrigado, Skrygix, é um bom retrato. Vou mandar emoldurar e pendurar no meu escritório aqui na escola." Ele abriu sua bolsa e colocou a pintura dentro, cuidadoso ao guardá-la em um dos compartimentos rígidos para que não dobrasse.

"O que o senhor vai fazer nas férias, Professor L?"

"Ficarei fora por um dia ou dois, depois estarei de volta aqui pelo resto do verão. Cuidando do jardim o máximo que puder antes que fique quente demais, e depois preparando o plano de aula do próximo ano. Nada de emocionante."

"Para onde o senhor vai?"

"Hum?"

"O senhor disse que ficaria fora por alguns dias." Skrygix inclinou a cabeça e o estudou abertamente. Ela era alta para uma goblin, alta para sua idade.

Liric fechou a bolsa e sentiu os fechos de metal rastejarem um em direção ao outro, selando-se com um clique inaudível. De fabricação Izzet, a bolsa encolhia suas câmaras e bolsos ao redor do conteúdo e apertava-se em suas costas quando sacudida. Era a segunda coisa mais cara que ele possuía. Liric levantou-se e deu um tapinha no ombro de Skrygix.

"Feliz Último Dia, Skrygix. Tenha um bom verão."

Horas depois, Liric observava o pôr do sol do dorso de um zepelídeo enquanto este descia para o distrito de Ismeri. A maioria dos passageiros da fera estava com ele na amurada oeste, e por um momento ele imaginou que viam como um só: todas as noites de Ravnica começando, estendidas como um cobertor aos seus pés.

Depois que ancoraram, Liric caminhou calmamente pelo passeio. As fachadas das lojas fechavam suas janelas, as lâmpadas eram acesas e o tráfego noturno infiltrava-se nas ruas. Ele crescera ali em Ismeri e, embora as fachadas tivessem mudado, parecia mais familiar do que nunca. Do lado de fora de um salão de dança, dois seguranças Rakdos comparavam tatuagens enquanto um vendedor de bolinhos estacionava seu carrinho. Alguns quarteirões depois, um trio de valentões provocava um moa até que este empinou, atingiu um deles com sua testeira de bronze e o derrubou. Na esquina da 12ª com a Véu, Liric parou e girou lentamente em um círculo. Ele beijara uma garota ali pela primeira vez, Mareena, cuja boca larga e olhos grandes lembravam algo de sapo, mas a memória ainda era calorosa, radiante. Ele sentiu-se tonto. Estava em casa.

Liric encontrou um banheiro público e se trocou. Seu cardigã com o emblema da AFL foi para a bolsa Izzet, e seu manto de portão saiu. No espelho, Liric admirou-se e contou de trás para frente a partir de onze. Quando chegou ao zero, seu reflexo desvaneceu até ficar quase transparente.

Na rua, a ação atingira um nível confortável de caos, e Liric entrou em um edifício que um observador poderia pensar que ele escolhera ao acaso. Ele nunca estivera neste local exato antes, mas visto de fora, era idêntico a todas as outras casas de operações de onde trabalhara. Ou seja, não parecia nada de especial. A porta externa estava destrancada e, quando estava dentro do vestíbulo, Liric colocou as mãos nos bolsos de seu manto de portão.

Seu fio estava lá. Era um cadarço, ou uma fita, ou um pedaço de barbante. Quanto mais de perto se olhava, mais comum parecia, até que se parava de vê-lo completamente. Ele o enrolou no pulso e, com o dedo indicador, traçou o sinal de inclusão na porta interna. A maçaneta desapareceu e ela se abriu pelo lado oposto.

Ele caminhou pelo canto de refeições do cortiço e parou na cozinha. Para a sala vazia, disse: "Estou aqui agora. Onde estão minhas boas-vindas?"

O ar ficou seco e, de um nicho escondido acima dos armários, um óculus apareceu. Ele desceu e equilibrou-se no escorredor de pratos antes de pular para a mesa.

Era isso. Todas as noites gastas agonizando sobre seu plano, a tensão e ansiedade dos últimos dias, tudo se desenrolaria agora. Liric inclinou-se para frente. A criatura colocou as mãos nos ombros dele e o encarou. Tinha cheiro de sal.

Como se sempre estivesse lá, a voz do guardião de memórias sussurrou através do chão de ladrilhos para dentro da sala, uma coleção de ruídos de cozinha guardados arranjados como uma pergunta.

"Trouxe um enigma?"

"Não", respondeu Liric, "não trouxe." Magias sombrias formigaram em sua pele, e seu fio zumbiu, contorcendo-se contra sua palma como uma coisa viva, protegendo-o da sondagem do guardião. Ele suprimiu o impulso de tremer.

"E por que não?" A pergunta foi prolongada, um chocalhar de pratos no armário, o "não" um som como um dente de leite caindo em um copo. Liric empertigou-se e o óculus recuou, empoleirado em suas patas traseiras.

"O enigma acabou. Eu o resolvi."

Houve uma pausa aterradora antes que o guardião risse, sem alma. "Seja como quiser, agente."

O alívio o inundou: ele não fora reconhecido. No canto, onde estivera uma vassoura, havia agora um lance estreito de escadas que levava para baixo.

No fundo, o intérprete Dimir estava sentado de costas para a porta, manipulando a parede de areia. Construída a partir de um número incontável de memórias, a parede recordava eventos passados de todas as perspectivas que continha. Liric sentia um formigamento e distanciamento, como sempre sentia na presença da parede. Alguma parte essencial dele subitamente faltava. Ele era um boneco, em um mundo de bonecos, realizando uma pantomima mecânica da vida. Estas memórias não são minhas, dizia Liric para si mesmo. No entanto, olhando para a casa de bonecas através da parede de areia, estava o intérprete.

Liric limpou a garganta. As mãos que desenhavam padrões infinitos e sigilos na areia desaceleraram, baixaram e então giraram sua cadeira. Ele era menor do que Liric se lembrava — não apenas mais magro, mas encolhido. Os olhos do intérprete focaram lentamente, depois se arregalaram em surpresa.

"Liric? Faz tanto tempo? Como você..." O intérprete silenciou, tropeçando ao se levantar. Eles se abraçaram, desajeitadamente.

"Oi pai", disse Liric. "Faz muito tempo."

A última vez que vira seu pai fora de uma casa de operações foi quando Liric fora elevado a remanescente Dimir. A cerimônia ocorrera em um átrio do Manto Crepuscular com apenas seu pai e um mago de guilda presentes. O mago passara uma moeda cunhada com a imagem de Lazav sobre o fio de Liric e o selara de ponta a ponta. Um símbolo do círculo anulado. Apenas agentes da mais alta ordem podiam usar um fio transformado dessa maneira; era um talento que não podia ser ensinado. Seu pai chorara de orgulho, emocionado ao saber que seu filho nunca labutaria como um guarda-livros nas entranhas da subcidade. Liric poderia caminhar pela face de Ravnica sem ser visto, moldar o futuro da cidade como os Dimir dirigissem, e ninguém jamais saberia quem ele era.

Mas não depois desta noite. Sete dias antes, Liric encontrara o mago que realizara seu remanescente, a única pessoa além de seu pai que poderia possivelmente se lembrar dele. Liric deixara o homem em branco, desabado contra uma coluna em Dinrova.

Liric sorriu com afeição genuína e disse suavemente: "Por que você não me mostra no que tem trabalhado, pai?"

"O quê? Ah, sim, claro!" Seu pai voltou-se para a parede e extraiu suas memórias. "As guildas estão prontas para percorrer o Labirinto Implícito. Colhemos o máximo que pudemos sem despertar... ah. Olhe aqui!" Na areia, uma imagem vista através de um arco distante: Niv-Mizzet, estudando uma maquete de Ravnica. A parede mudou, tornou-se um mago Izzet que Liric reconheceu como Ral Zarek, rindo enquanto um elemental remexia as ruínas de um edifício desabado.

"Lazav acredita que há um prêmio que os Dimir devem ter." Seu pai estava animado de uma maneira que apenas a parede o deixava. "Mas então há algo diferente aqui. Este, ele é importante também, mas ainda não vi como..." Uma figura encapuzada de azul, com um olhar confuso que era familiar demais. Liric deu um passo em direção ao pai, esticou seu fio entre ambas as mãos e fechou os olhos.

De quantas mentes ele roubara, de quantos ele desvanecera suas inteligências mais privadas apenas para despejá-las em paredes como aquela?

No início, fizera um tipo de sentido grotesco. A consciência coletiva de Ravnica era uma massa de modelar que ele podia achatar e moldar em qualquer formato que escolhesse. Ele fora apaixonado pela ideia, pelo anonimato sombrio, pela sensação de ser algo mais, mas aquilo acabara. Seu pai seria o último, absolutamente o último, e amanhã, ele não seria mais Dimir.

Era algo delicadamente simples. Liric passou o fio lentamente sob seu polegar e uma série de glifos saltou, um a um. As cenas que corriam pela parede tremeram e foram varridas. As mãos de seu pai estavam ao lado do corpo novamente. Ele se virou e franziu a testa.

"Sinto muito agente... esqueci seu nome. Veio fazer um depósito?"

Liric piscou várias vezes antes de conseguir falar. "Já fizemos o depósito. Tenho que ir agora, estou com pressa."

O intérprete assentiu, abriu a boca para dizer algo, depois a fechou novamente quando as palavras não vieram. Deu de ombros e sentou-se novamente diante da parede de areia.

De volta à rua, Liric dirigiu-se à biblioteca e depois entrou em um beco. Aquela parte do distrito era pouco percorrida à noite. Ele tirou seu fio do bolso e olhou por cima do ombro, dominado pelo medo súbito de estar sendo seguido. Não havia ninguém lá.

Ele o segurou diante dos olhos e arrancou as contas, viu-as brilhar e sumir até que o que estava em suas mãos parecesse um fio de costura. Talvez tivesse se desfiado de um rasgo em sua camisa. Ele era apenas um professor de escola agora. Não podia pagar por roupas caras. Quando voltasse para a Academia da Fonte do Lar, ele o enterraria no jardim, cobriria com uma pedra e plantaria uma samambaia por cima.

E penduraria a caricatura que Skrygix pintara dele na parede de sua sala de aula.

Rastro de Papel

, author: "Nik Davidson", doc )

#box(inset: (left: 2.0mm), stroke: (left: 0.5mm + gray))[Querido Diário,

Hoje é o melhor dia de todos! Mamãe comprou um ovo de mandíbula para mim no mercado! Prometi cuidar bem dele e limpar a sujeira e garantir que ele não coma nada importante. Mandíbulas são os melhores animais de estimação! Lev tinha uma, e ninguém se metia com ele depois disso. Seremos melhores amigos.

Ruslan]

#box(inset: (left: 2.0mm), stroke: (left: 0.5mm + gray))[Querido Diário,

Hoje, o Kuba faz três semanas. Ele ficou tão grande! Mamãe gosta dele porque ele come os ratos, mas ele come quase tudo o que deixamos. Ele me segue por toda parte e é super legal. Dou para ele o que sobra do meu almoço e ele lambe meu rosto. Alena está brava comigo porque diz que o Kuba comeu o cachorro dela, mas eu sei que ele não comeu e, de qualquer forma, o cachorro idiota dela me mordeu ontem, então bem feito para ela.

Ruslan]

#box(inset: (left: 2.0mm), stroke: (left: 0.5mm + gray))[Querido Diário,

O Kuba fugiu. Ele perseguiu algo nos esgotos e não voltou. Mamãe diz que posso ganhar outro, mas não quero outro. Quero que o Kuba volte para casa.

Ruslan]

#strong[12 de Griev, Registro do Monitor de Trabalhadores]

Recuperação de esgoto prosseguindo sem incidentes. Três trabalhadores foram trocados durante a última semana, e dois retornaram. Sem perda líquida de eficiência em nosso setor.

Uma mandíbula entrou na fazenda de podridão hoje, presumivelmente vinda de Cima. Ela tem lutado e comido sem parar desde que chegou. Alguns de nós fizemos apostas sobre quanto tempo ela viverá.

#strong[19 de Griev, Registro do Monitor de Trabalhadores]

A mandíbula saiu de controle. Ela comeu dois dos trabalhadores, então trouxemos um tratador para dar a ela um propósito melhor. Então ela comeu o tratador. Embora eu tenha certeza de que, com esforço suficiente, poderíamos fazer bom uso da fera, não creio que valha o esforço e as perdas. Estou planejando mandá-la através de uma grade de escoamento para o território da Liga Izzet. Deixe que ela coma alguns deles. Temos trabalho de verdade a fazer.

#strong[Proposta de Teste #1547, Kelen Jek, Especialista em Mecanoaumentação, Terceira Classe]

Contexto: A implementação de sistemas de mecanoaumentação biomecânica tem sido historicamente dificultada, pois as faculdades mentais do organismo implantado carecem dos caminhos neurais instintivos para lidar com a integração súbita dos novos dispositivos.

Pergunta: Um soro de neuroamplificação pode ser aplicado a um sujeito em conjunto com uma mecanoaumentação implantada a fim de dar ao sujeito a habilidade de integrar o aumento em seus processos biológicos instintivos?

Métodos: Implantar uma estrutura simples de mecanoaumentação de mizzium em um organismo biológico em conjunto com soro de neuroamplificação (fórmula \#R-25J12) para determinar se o organismo biológico exercerá controle mental sobre a estrutura sem destruir o organismo ou a estrutura.

Protocolos de Segurança: Impacto projetado como mínimo. Solicitado biorecinto de baixa segurança.

Orador Trifon,

Tenho o prazer de informá-lo sobre os resultados de uma série de projetos que chegaram ao fim recentemente. Como o senhor foi notificado, há várias semanas descobrimos uma criatura gravemente ferida caminhando pela costa do Interior Norte. Nós a induzimos à incubação para curá-la, e uma série inesperada de reações começou.

Embora eu postule que a criatura tenha começado a vida como uma mandíbula comum, ela certamente teve uma vida agitada. Seu tamanho e musculatura aumentados são consistentes com criaturas criadas pelos Golgari, enquanto seu sistema esquelético reforçado é claramente o resultado de manipulações maliciosas dos Izzet. Removemos cirurgicamente a maioria desses mecanismos, mas não pudemos remover todos por medo de danificar seu sistema nervoso central.

Usei um conjunto padrão de misturas para a câmara de incubação, mas parece que esta mandíbula estava destinada a algo maior do que sua origem, ou mesmo eu, havíamos pretendido para ela. Ela começou a manifestar uma expansão intelectual incrível e, fosse por contaminação ou, como eu teorizo, algum tipo de ideal interno para sua própria consciência nascente — começou a desenvolver aproximações de características humanoides. Acredito que ela esteja prestes a demonstrar sapiência. Meu entusiasmo com esta conquista é diminuído apenas pelo fato de que não tenho ideia de como conseguiria replicá-la um dia.

O senhor será, é claro, mantido informado sobre o progresso do sujeito, embora eu pretenda que a vida e as escolhas do sujeito se tornem cada vez mais autodirigidas com o tempo.

Stanisil, Biomante, Clado do Casco

Stanisil me pediu para registrar meus pensamentos e sentimentos enquanto eu, e eles, nos desenvolvemos. Olho para estas mãos e não as reconheço totalmente como minhas. Lembro-me da ideia de mãos, e lembro-me do que meus membros anteriores costumavam ser. Nenhuma dessas coisas é o que atualmente segura esta pena. Frequentemente me perguntam o que eu quero, como me sinto, e não sei o que dizer. Os Simic cuidaram excepcionalmente bem de mim e me tratam com respeito. Mas é a curiosidade deles que sinto mais do que qualquer outra coisa. Estou sendo estudado, e não gosto disso.

Dizem-me que tenho a liberdade de ir para onde desejar e fazer o que quiser. A ideia me apavora. Às vezes, não quero nada mais do que encontrar um lugar quente ao sol. Tudo parece tão novo.

Há outra coisa para a qual minha mente continua retornando, mas hesito em compartilhá-la, mesmo com Stanisil. Há a imagem de um menino humano. Lembro-me de sua bondade. Lembro-me de ser feliz. Lembro-me de...

Casa.

Quero ir para casa. E acho que me lembro do caminho.

Batalha pelo Nono

, author: "Adam Lee", doc )

Gideon limpou a sujeira e a poeira do rosto e sorriu.

"Eles morderam a isca", disse Anza animada, enquanto pedaços do edifício choviam sobre suas cabeças. Tijolos quebrados jaziam espalhados ao redor deles; eram mal visíveis um para o outro no ar saturado de poeira.

"Essa é uma coisa sobre os Gruul com que você pode contar", disse Gideon. Outra pancada maciça de clava derrubou uma parede próxima, enviando destroços para todos os lados e quebrando três enormes vigas de sustentação. Os andares superiores desabaram ao redor deles como uma avalanche — cadeiras, mesas e louças tilintavam em uma torrente. Podiam ouvir um gigante urrar com fúria de batalha do lado de fora. Ele estava chegando mais perto.

"Krokt!", disse Gideon enquanto cuspia poeira. "É apenas uma questão de tempo até que ele nos fareje. Volte para a praça, diga ao Dars que estamos vindo e para tomarem posição. Cuidado!" Gideon empurrou Anza para fora do caminho quando um segundo golpe da clava do gigante esmagou o que restava da parede e enviou Gideon ao chão. Ele olhou para cima e viu Anza mover-se mais rápido que um viashino enquanto ela saltava e se esgueirava pelas nuvens de poeira e destroços em direção ao beco dos fundos. Gideon levantou-se rapidamente enquanto o gigante continuava a golpear descontroladamente, pedaços de edifícios voando para a rua como bolas de cortiça em um jogo de borlist. Logo atrás do gigante, Gideon ouvia uma vasta horda de Gruul batendo no chão e entoando cânticos de guerra.

Bom, pensou Gideon enquanto disparava em corrida. Traga todos eles.


Dars Gostok ouvia o caos ecoando pelas ruas estreitas do Nono Distrito. Todo tipo de inferno estava se desencadeando e ele ainda não tinha sinal de Jura.

Gideon fizera Dars reunir a legião Boros conhecida como Punho de Fogo na praça, escondida nos edifícios ao redor. Muitos antes tentaram retomar o Nono, mas todos falharam. Os cidadãos sem guilda olhavam por trás de suas portas barradas e janelas fechadas para o Punho de Fogo. Os cidadãos aprenderam apenas a pregar tábuas nas portas e esperar passar quando as guildas chegavam em força.

Quando os sons de destruição ecoaram pela rua até a praça, estavam muito mais próximos. Os legionários empertigaram-se e levaram as mãos às espadas. A hora chegara.

"Estamos prontos, capitão." O cabo de Dars, Jazek, olhou para ele com expectativa.

"Bom. Espere até que Jura os atraia para a praça."

Nesse momento, Anza apareceu na rua e correu pela extensão da praça; Dars a encontrou sob um arco de pedra. "Eles estão vindo", disse Anza entre arquejos. "O Comandante Jura não estará muito atrás."

"Tenho certeza de que ele se tornou um amigo próximo dos Gruul", disse Dars. "Ele atraiu o suficiente?"

"O Clã da Crosta enviou alguns dos grandes, Capitão", disse Anza, tomando um gole de um cantil. "E havia muitos atrás dele prontos para sangue. O Comandante Jura provavelmente trará cada Gruul do Nono para a nossa posição."

"Esse é o plano." Dars sorriu. Ele desembainhou sua espada e marchou para a praça para se dirigir à sua legião. "Punho de Fogo, posições! Agora vamos ver se aqueles bastardos Rakdos mordem a isca e teremos uma festa de verdade."


Gideon correu para a grande praça como um louco, uma horda de Gruul enfurecida atrás dele como uma tempestade.

"Esperem!", gritou Gideon enquanto passava correndo pelo centro da praça em direção à linha de frente Boros. Os Gruul jorravam para dentro da praça na extremidade distante, prontos para a carnificina. Assim que os Gruul cruzaram o centro da praça, Gideon berrou: "Agora!"

Dars comandou: "Fogo!" Dos telhados e andares superiores, uma explosão de magia Boros iluminou a praça com jatos de fogo que atingiram os Gruul. Guerreiros Gruul irromperam em chamas e feras maciças desabaram em amontoados, mas a horda implacável avançava por entre os corpos dos caídos em direção à linha Boros.

"Atacar!" Gideon e os Boros avançaram de suas posições para enfrentar os Gruul em combate corpo a corpo. Atrás deles, uma onda de primeiros-lâmina, cobradores e comandos bradavam seus gritos de guerra honrando os Ordruun e seus juramentos sagrados. Eles chocaram-se contra uma massa de guerreiros e feras Gruul do clã Ghor e da Crosta.

Gideon abriu caminho pelas fileiras Boros para encontrar Dars. "Algum sinal dos Rakdos?"

"Nada", disse Dars. "Nenhum sinal."

"Krokt." Gideon cuspiu. "Não podemos segurar os Gruul para sempre e não podemos deixá-los ir. Só preciso que aquele dromade sorridente chegue aqui com os Rakdos."

De repente, do outro lado da praça, um uivo louco pôde ser ouvido acima do estrépito da batalha. Um cavaleiro Boros de pele morena vestido em armadura reluzente corria à frente de um emaranhado caótico de demônios e desviantes. Um sorriso surgiu no rosto do cavaleiro em um lampejo de dentes brancos quando viu Gideon.

Gideon chamou: "Tajic! Cuidado!"

Um estrondo de magia demoníaca atingiu Tajic como uma bala de canhão e o envolveu em uma nuvem de fogo e enxofre. Gideon parou bruscamente, mas Tajic emergiu impecável, ainda com um sorriso no rosto. Combatentes Boros correram para interceptar os Rakdos enquanto Tajic parava diante de Gideon.

"Jura, meu amigo! Retorno como prometido!" Os olhos de Tajic brilhavam de alegria enquanto ele limpava a poeira. Tajic notou o rosto de Gideon. "Não se preocupe, Jura, foi apenas uma baforada de fumaça."

"Eu estava me perguntando quando você chegaria", disse Gideon ao corredor do labirinto Boros. "Parece que você conseguiu a atenção deles."

"Foi fácil", disse Tajic. "Você só precisa saber quais insultos usar."

Gideon procurou pelo capitão do Punho de Fogo. "Dars, os Rakdos chegaram!"

Dars ordenou a um cavaleiro que soasse a trombeta. Em três notas agudas, o Punho de Fogo desengajou-se dos Gruul e abriu caminho de volta para formar uma muralha eriçada de lanças e espadas Boros, enquanto os Rakdos jorravam para dentro da praça em uma torrente frenética de insanidade. Eles instantaneamente atacaram os Gruul com frenesi e deleite. Minotauros Boros, mergulhados em fúria de batalha, foram arrastados da luta conforme recobravam os sentidos o suficiente para lembrar de seu treinamento e recuar.

"Contenham-nos!", Gideon, Dars e Tajic gritavam em meio ao caos enquanto corriam para ajudar a manter áreas da linha do Punho de Fogo que mostravam sinais de fraqueza. "Mantenham-nos na praça a todo custo!"

Todo o esforço do Punho de Fogo foi voltado para conter o caos. Rakdos e Gruul massacravam uns aos outros no centro da praça, perdidos em um frenesi de sangue e fúria. Os Boros fecharam fileiras nas bordas da batalha e avançaram lentamente como o laço de uma armadilha.

Enquanto a companhia principal do Punho de Fogo mantinha o combate, Gideon fez Tajic separar-se com um pelotão de cobradores e comandos para patrulhar as áreas restantes.

Tajic uniu-se a algumas patrulhas de executores e cavaleiros Orzhov que já haviam usado sua influência para erradicar alguns dos mestres de marionetes e líderes Dimir infiltrados no Nono. Teysa Karlov cobrou alguns favores para obter informações que apenas um Orzhov poderia conseguir. Houve um acordo feito com o Obzedat, é claro: os Boros e Orzhov compartilhariam as tarefas de proteção sobre o Nono, mas Teysa lhes assegurara que seria ela quem supervisionaria o bem-estar do distrito. Foi uma venda difícil para Aurélia, mas a mestre de guerra angelical entendia tão bem quanto qualquer um que erradicar as células adormecidas Dimir e expurgá-las do Nono era necessário para retomar o distrito.

É claro que, com os Dimir, nunca se pode ter certeza absoluta.


Gideon estava com a líder de guerra depois que todos partiram. Ela pegou um pequeno edifício da grande mesa central onde uma maquete do Nono distrito estava estendida e olhou para ele por um momento.

"Você prestou um grande serviço aos Boros e a mim, Jura", disse Aurélia enquanto girava a maquete nos dedos. Então ela olhou para ele. "Você prestou um serviço ainda maior aos cidadãos de Ravnica. Tem certeza de que não deseja se juntar às nossas fileiras e servir aos cidadãos de Ravnica?"

Gideon sorriu. "Nada me agradaria mais do que ajudar você e os Boros, líder de guerra. Não lutei ao lado de soldados melhores em todo o meu tempo, mas sou necessário em outro lugar. Há outras batalhas que devo lutar."

Aurélia olhou para ele com olhos que viam muito mais do que a mera visão humana. Gideon se perguntava o quanto o anjo entendia das forças fora de Ravnica, ou se ela sequer tinha consciência delas. Ele ofereceu a mão; Aurélia apertou seu antebraço com um aperto de ferro que enviou calor e poder zumbindo para o seu corpo.

"Obrigada, Jura." Ela soltou o braço dele. Ele ainda sentia a energia agindo em seus ossos.

Gideon curvou-se. "Foi uma honra, líder de guerra."

Subitamente, ela sorriu para ele, com energia irradiando de seu rosto. Gideon quase deu um passo atrás. Foi ao mesmo tempo belo e avassalador, e então, tão subitamente quanto surgiu, ela se virou e saiu da sala.

Enquanto saía, ela disse: "Você será sempre bem-vindo em Soliar, Jura."